segunda-feira, 9 de outubro de 2006


when i'm over you
and when you are over me
as we go on this journey apart and alone
just another daydream
just another daydream
just another day
just another day to dream
you can now unlock the sadness
if you ever feel the need
don't you know what turns the planet?
sends those shipwrecks back to sea?
healing begins when the wounds have been closed
caution the flowers, these buds may not show
just another daydream
just another daydream

when i'm over you
and when you are over me

will ours ghosts be together?
so peaceful... so free...
just another daydream
just another daydream

fading in the moonlight
fading in the moonlight
i don't see the world through cold (...) eyes.


(música e letra: perry blake/sabiu - when i'm over you - in, songs for someone
foto: fernando lemos - a sós/areia e vertigem 1949/52-05)

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

o sal da terra
















Desconfia daqueles que veneram. Expulsa de tua soleira os devotos. Não admitas a teu convívio os lábios reverenciais. Com as giestas da última primavera (eram abundantes, lembras-te?), arma a vassoura que trarás sempre contigo. Busca o desprezo, de ti e das coisas, com a mesma infinda minúcia com que outros apenas se buscam, na composição confusa de seus ecos.

Tu, porém, se é a poesia que procuras, cultiva a indiferença absoluta pela poesia. Não te deslumbre a cantilena dos oficiais, nem penses nunca que encontraste a poesia no exaltado martelar dos artífices. Afasta-te dos que repetem os nomes do poema como avulsos consolos, e não como íngremes entradas que a própria montanha estabelece. A poesia passa ao largo de tudo: é um mendigo que chegou a más horas e partiu antes de todos; é um grito que nos sobressalta o sono e não sabemos se irrompeu do mundo exterior ou de dentro dos próprios sonhos; é uma embarcação que pensas ter vislumbrado apenas na névoa e da qual nem coragem tens de falar. Em caso algum te deixes tentar pelos fáceis modos da vizinhança quando a distância é o nó irredutível da comunhão verdadeira.




josé tolentino mendonça
(foto:autor desconhecido - "manicomio de conxo")

quarta-feira, 4 de outubro de 2006





há coisas que se vão como a luz ao final do dia
...e sempre esta espera interminável de ti...







(foto: zomik - "gone")

quarta-feira, 27 de setembro de 2006


quando estou contigo sinto aquele frio rasgado no ventre
os pés levantam com se levitasse
os olhos fecham instintivamente
o tempo pára
a cabeça reclina sobre um dos ombros teus
e eu deixo finalmente de ser quem nunca fui




quando estou contigo é sempre outono...




(foto: lilya corneli - "winter's days series" - work with maria mann)

sábado, 16 de setembro de 2006


Será que me podias devolver o coração exactamente como estava?

Não!! Não te assustes outra vez!!

(que mania essa de que eu é que exijo e quero tudo direitinho!
não!

tenho a certeza de nunca te ter exigido nada
mas estou farta de ser feita de começar e acabar!
de ter que ser eu a decidir coisas que nunca decidi -
estou farta de ninguém conseguir acabar comigo de vez...)

E pode parecer que estou chateada mas não...
não estou nada chateada!

...e também não quero falar!

queria só que me tirasses, uma a uma, cada trave que ficou a magoar-me o peito!

por favor tira-me isto daqui!

devagarinho...
para que o sangue possa ser derramado de vez
em jeito de cálice sagrado onde nunca pude comungar!

por favor tira-me isto daqui!!
para que eu possa ser feita de um morrer descansado!

prometo que não vou falar!

tira-me só estas traves para te poder abraçar!




















(foto: lilya corneli - "elements of power series" - work with maria mann)

quinta-feira, 14 de setembro de 2006


"(...) às vezes as pessoas compreendem-se melhor quando se calam todas.(...)"

irmão Roger de Taizé

(foto: site oficial de Taizé)

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

das personalidades vincadas II - fedra




Introdução


fedra é uma cadela rafeira que ficou em nossa casa devido a uma das ninhadas imprevistas de daisy (sua falecida mãe).

ficámos com ela, na altura, por não termos conseguido novo dono devido, diziam,a ser enfezada e pequena em relação aos irmãos e a não ter perspectivas de sobreviver.

mimos a mais e comidinha caseira tornaram-na robusta e meiga apesar de teimosa, mal-educada, irritável, impertinente, inflexível, insubordinada, refilona etc... etc...
(apesar disso é um dos "mais-que-tudo" da família - caso que faz jus à conhecida frase "o amor é cego!")

como todos o membros da família, sai de casa de manhã (como se fosse trabalhar), vem almoçar e volta a sair até ser noite, altura essa em que regressa novamente (mantendo uma espécie de vida dupla e secreta).

a época de cio era a única época em que fedra ia à rua presa por uma trela, trela essa que teve de ir sendo substituida por várias outras trelas cada vez mais resistentes mas que ainda assim não suportavam a força imparável desta cadela rebelde.

da insuficiente resistência das trelas e dos seus donos ocorreram algumas escapadelas que resultavam sempre em ninhadas numerosas.

o pulular constante e fora do comum das hormonas de fedra levaram a que os seus "donos" (i.é. pessoas humanas com quem vive) optassem por uma resolução cirúrgica e definitiva do problema.

do cadastro de fedra (para além das escapadelas) constam: o homicídio (desconfiamos que voluntário) de uma pomba - ainda em criança, o namoro ilegítimo e fiel (mesmo após a operação) com Athos, e o arrombamento e fuga da grade do consultório veterinário aquando da primeira tentativa de cirurgia.

assim, as cenas relacionadas com o cio e ninhadas, já não poderão ser reproduzidas por semelhança em realidades próximas. Quanto às restantes, vão-se passando comummente, apenas havendo pequenas mudanças de "cenários" e " personagens".

O que vos vou narrar, são portanto excertos de algumas situações que fazem parte do nosso dia-a-dia.

ATENÇÃO-
as cenas que de seguida vão ser descritas são realidade. qualquer semelhança com a ficção é pura coincidência.





Cena I

esta cena passa-se num jardim onde fedra costuma "regar" as árvores em crescimento sendo a outra personagem interveniente uma vizinha (v.) que pelos vistos só fedra conhece;
(s.) sou eu própria.

s. passeia atribuladamente fedra, que fazendo força tenta partir a trela. Entretando aproxima-se v. que depois de ter gritado qualquer coisa imperceptível do outro da rua, atravessa de propósito a estrada, cumprimenta de soslaio s. sem interesse, e curva-se para afagar fedra dizendo:

v. - oh fedra!!! onde tens andado?
não te temos visto!!
então?
coitadinha!!! andas presa?

s. - (tentando desculpar-se)
...pois... é o cio...

(v. continua a não dar importância a s. e a fazer festas a fedra)

v. - oh fedrinha!!!
não nos tens visitado ali na loja!!
eu já andava estranhar que não aparecesses...


v. - (olhando de soslaio para s. com ar de reprovação)
agora percebo! andas presa não é coitadinha???!!!

s. - (...)



Cena II

encontro casual entre (s.) e o "rapaz castiço dos olhos azuis que brinca no jardim perto da casa onde cresci" (r.)

r. - olha! tu é que és a dona da fedra?

s. - sim...

r. - sabes uma coisa?
a fedra é a minha melhor amiga!!

s. - (em tom jucozo) ai sim??!!

r. - claro!! um dia um menino, aqui da rua em frente, queria fazer-me mal e ela defendeu-me!! pôs-se à minha frente e olhou para ele assim...


(exemplifica com os dentes arreganhados e rosnando tentando imitar fedra quando está zangada e ameaçando morder)


r. - a fedra salvou-me a vida!!
ela é a minha melhor amiga!

nunca me viste?
costumo brincar com ela aqui na rua!!!

s. - (...)

Cena III

toca a campaínha - conversa pelo intercomunicador entre (s.) e (r.)

r. - boa tarde! a fedra está?

s. - está sim!

r. - ela pode vir brincar para a rua?

s. - ...huh.... ela acabou agora de chegar da rua!...

r. - vá lá!! deixe-a lá vir brincar!!! estamos todos à espera dela!!

s. - (...)


Cena IV

a cena passa-se num café de bairro e a conversa é mantida pelo meu pai (d.) e a sr.ª do café (x.)

x. - (servindo uma água com gás natural)
sr. d. o que é que se passa com a nossa fedra?

d. - porquê d.ª x.? ela portou-se mal?

x. - costuma vir cá sempre dar-me os bons dias e hoje ainda não apareceu!

d. - (...)


Cena V

a cena passa-se num supermercado de bairro onde a minha mãe (m.) faz a compras.

(y.) é a empregada do espaço comercial.

y. -
(séria e preocupada)
dª m. a sua cadela já cá esteve à sua procura!
nem sequer entrou veja lá!...espreitou pela porta e foi-se embora!

m. -
(em tom de brincadeira)
ai foi??

y. - até tenho impressão que foi à sua procura também ali no café a no talho ao lado...

m. - (...)

Cena VI

em casa - diálogo entre (m.) e ( d.)

m. - (saindo da cozinha e falando para d. que estava na outra divisão a ver t.v.)
já tens o jantar em cima da mesa!!


(d. continua a ver tv por um tempo, passado um bocado dirige-se à cozinha)


d. - oh m. é para me servir do que está na frigideira?

m. - (gritando de outra divisão da casa)
porquê? não te chega o que está no prato?

d. - (olhando para o prato com mais atenção)
mas não serviste o prato!!!

m. -
(voltando à cozinha para rectificar, olhando para o prato limpo e sem mancha de gordura, duvidando de si-própria)

mas eu tenho a certeza que tinha servido a comida...
não me digas que estou a ficar maluca!!!

(olha para a frigideira continuando na dúvida...)
mas também não está aqui o bife que te fritei!!!

(olha por fim para fedra que observava calmamente a situação)

m. - não me digas que foste tu fedra!!
batatas e tudo!!!
não sobrou nada e lambeste o prato todo... até parece que o lavaste!!!

fedra -
(lambendo-se e gozando com m. e d.)
(...)

Cena VII

conversa ao telefone.
intervenientes: (m.) e a dona do consultório veterinário (e.) onde fedra foi internada para cirurgia

m. - tou?
olhe eu sou a dona da fedra- a cadela que deixei aí hoje para operar...
é para saber se a cirurgia correu bem!

e. - (em tom irascível)
está a perguntar-me se correu bem minha senhora?
nem sequer pudémos operá-la!!!
nunca me tinha acontecido uma coisa destas minha senhora!
a sua cadela é terrível!
nunca vi coisa assim!
quando lhe demos a injecção para ela adormecer, em vez de ficar mais calma começou a espernear de tal maneira!...
ficou tão raivosa, tão raivosa que até nos tentou morder!

m . - (perplexa)
que estranho! ela normalmente refila mas não morde!

e. - nessa altura ainda nos partiu algumas coisitas que tínhamos por ali!
então, para ver se ela acalmava colocámo-la na grade e esperámos um bocadinho no outro gabinete!!
ela continuou a fazer barulho e nós não ligámos! passado um bocado, voltámos à sala e imagine... ela tinha-nos partido a grade toda!! nunca vi uma coisa assim!!!
naquela grade já estiveram até pastores alemães e nunca me fizeram uma coisa destas!!!

m. - que estranho!! fique descansada que nós tentaremos arranjar os estragos!!!

e. - não!! não é pelo dinheiro!!
isto??
para isto vai ter que contratar um soldador!! as grade são de ferro!!!
quando vier cá buscá-la eu mostro-lhe!!!
a sr.ª vai ver que não estou a exagerar!!
não sei onde é que a sua cadela foi buscar tanta força!!!
nunca vi!!!
e além disso não sei como é que a injecção não funcionou!!! funciona sempre!

m. - então e agora? vamos ter que marcar nova cirurgia??!!

e. - nova cirurgia? eu nem sei se o médico responsável e o estagiário vão querer operá-la!!
depois disto?
é que não tá a ver!! éramos três a segurá-la!!!
nem eles que já têm tanta experiência viram alguma vez uma coisa assim!!...

m. - (...)


(foto: sophiarui "fedra's ashes")

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

das personalidades vincadas I - a laranjeira



conta-se na família que a laranjeira nas traseiras da casa branca de província sempre foi uma laranjeira teimosa.

Ora dava frutos suculentos, ora fazia greve e não deixava vislumbrar nenhum ponto laranja no entremeio dos seus ramos!

Quem se enervava com a situação era a velha Ti Piedade que ameaçava de morte a àrvore de personalidade forte.

Certa estação, em que a laranjeira deveria ter dado fruto, a Ti Piedade, já farta de tanto ralhar, pegou numa foice e ameaçou a àrvore com a lâmina em riste dizendo:

- Se não voltares a dar fruto bom, corto-te o tronco e nunca mais viverás!!!

Coincidência ou não, a partir daí, não houve ano em que a àrvore não nos premiasse com sumarentos e apetitosos frutos.

A quem quiser ofereço, hoje mesmo, um sumo de laranja, sem necessidade de adição de açúcar ou adoçante.

Tchim tchim!



(foto: sophiarui "a laranjeira da ti piedade I e II")

segunda-feira, 7 de agosto de 2006





nunca conseguirei descrever
a sensação da música fluir
na dança de uma mazurca ao relento...

(afinal também sei dançar acompanhada)




(foto:berenika "after concert")

quinta-feira, 27 de julho de 2006





branca de neve...

Não fui eu que escolhi esta imagem
foi ela que me escolheu a mim

repetidamente...

branca de neve...

foi ela que me escolheu a mim...

branca de neve...

não!
nunca gostei de histórias de encantar
sempre fui esta maçã engasgada
esta morte lenta de nunca entender...
de não ter nunca respostas
para o silêncio...

(eternos queridos amantes meus...)

silêncio de nunca explicar...

branca de neve...

se me amam porque fogem vocês?
se me amam por que é que nunca...?
se me amam...
ahhh!!! se amam...porque dizem que me amam???...

branca de neve...

"és demasiado verdadeira para ser verdade..."

"és demasiado verdadeira para ser mentira..."

"és demasiado... demasiado tudo..."

"demasiado nada..."


("aziago..." talvez)

branca de neve...

se a verdade fosse o que a verdade me diz
e a mentira só este não falar...

(intuição a transbordar)

branca de neve...

"tu és o anjo!"

"e todo o anjo é terrível!"


"terrível..."

branca de neve...

"tu és o anjo que me vai salvar!"

talvez por isso...
eternamente...


branca de neve...

"tenho medo de ti!"

"tenho medo do branco que há em ti"


branca de neve...


maçãs da árvore
a única envenenada
é para mim sempre
banquete sem saciar

(serpente a enganar)

branca de neve...

que querem vocês de mim?
não sei que possa trocar...

"-queremos ser o teu grito inteiro!"

o meu grito não dá para narrar!

(solto apenas um gemido
só para experimentar...)

"pára!!! pára!!!..."

branca de neve...

" não dá para aguentar!"


engolem então
as palavras acabadas de pronunciar
grito inteiro envenenado
será que alguém o conseguirá escutar?


branca de neve...

o veneno que sou eu
anuncia sempre o vómito
vómito que é teu e teu
e não me pode manchar...

vomita estas vestes!
vomita!
para que me possa escalvar


branca de neve...

sim!!! foram vários os que escolheram cegar
vários a deixar-me sozinha
no silêncio inconfundível das lâminas...
no silêncio
de indo se deixarem ficar


(doi ainda mais esperar...)

branca de neve...

"quero-te sujar!"

"quero que sejas minha, só minha!"

"branca, imaculada, divina..."

(histórias a nacarar)

"branca do medo que me quer matar!"

"...presa, amordaçada no quarto escuro onde só eu te vou visitar!"

branca de neve....

"vou-te sujar!"

branca de neve...

"vais ser minha e só comigo vais ficar!"

branca de neve...

"come a maçã vais parar de respirar!"

AI!!!!!!!!!!

um dia cortarei o hímen com uma faca...
e lançarei às ribeiras o primeiro sangue
o sangue primeiro que sempre me percorrerá
como um frémito
e nele tingirei a roupa branca com que me vestes

(nunca me despes, nunca...)

branca de neve...

"és a mulher mais bela do mundo!"

branca de neve...

"és a mentira que só eu posso inventar!"

porque é que isso não me chega?
porque é que na altura dos corpos
fico sozinha
neste quarto sem ar!!

branca de neve...

"menina do meigo olhar"


menina, sempre menina...

quando me farão mulher?
quando me conseguirão penetrar
como se fosse
uma puta
um cão
um monstro
a filha
a irmã
a incestar

branca de neve...

fode-me para eu gritar!
eu sou feita de carne e osso
o meu branco é para estoirar!

branca de neve...

porque é que páras?
porque é que não te demoras em mim?
tu és branco do branco que eu sou
fode-me o branco
eu sou só assim!


(longo silêncio
de arrepiar)

branca de neve....
engole a maçã!
um dia o teu grito vai gritar!


(dedicado a Augusta Gerónimo)

(pintura: paula rego "branca de neve engole a maçã envenenada, 1995
pastel sobre papel montado em alumínio 170 x 150cm)


"Terror de te amar
num sítio tão frágil como o mundo



Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa"



"Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas."













Sophia de Mello Breyner


(foto: fernando lemos "sophia de mello breyner - a guerreira")



(um dia também conseguirei guerrear palavras como ela...)

"(...)

- és mulher porquê?


-porque é útil!

(...)"


























mario cesariny

(foto: fernando lemos "mario cezariny de vasconcellos- a mão secreta da escrita")

quarta-feira, 26 de julho de 2006



deviamos estar a chegar amor...
de madrugada

a chegar aos pés de Santiago
agradecendo-lhe a jornada e o caminho...

agradecendo-lhe o pão, o cálice, o vinho

e de mãos estendidas
rezando
orando enfim em tom calmo e baixinho...



este caminho...

ahh! que era tão longo que nos cansámos!

ahh! que era tão vasto que nos perdemos!

e a sede que tínhamos não saciámos
na concha que entreabria um fiel destino!


deviamos estar a chegar amor
e nem sequer partimos!


(foto:"santiago de compostela")
descobri que gosto do cheiro de pimenta e mel...

terça-feira, 25 de julho de 2006


Trazemos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que se veja que este extraordinário poder é de Deus e não é nosso.

Em tudo somos atribulados, mas não esmagados;
confundidos, mas não desesperados;

perseguidos, mas não abandonados;

abatidos, mas não aniquilados.

Trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus,
para que também a vida de Jesus seja manifesta no nosso corpo.


Estando ainda vivos, estamos continuamente expostos à morte por causa de Jesus,
para que a vida de Jesus seja manifesta também na nossa carne mortal.

Assim, em nós opera a morte, e em vós a vida. (...)





2ª carta aos Coríntios 4,7-15

(foto: josef koudelka "czechoslovakia 1968"
moravia. olomouc. carnival)

segunda-feira, 24 de julho de 2006


no livro que sou
as estórias de amor são contos efémeros
povoados de vultos negros
e cadeiras de esperar








não, não são lamentos
é apenas um cansaço...

há sempre uma parede com marcas
há sempre um vidro por quebrar






(foto: josef koudelka "england 1974")


Sentir de novo
aquela dor


há pouco
pouco respirar

aquele amor que foi
vivido e esquecido em segredo

como ninguém

perdoar
como perdoar


há tanto tempo que eu queria mudar
queria voltar


acordar

deixar o dia passar devagar

assim ficar...


sentir de novo
aquele amor

há pouco
pouco consolar

aquela dor que foi
vivida e sofrida em silêncio


chegar de novo

sentir o amor
voltar a casa sem pensar

deixar a luz entrar

esquecer aquela mágoa sem ter medo
como ninguém

encontrar
poder encontrar

todas as coisas que eu não soube dar

saber amar


perdoar

saber perdoar


há tanto tempo que eu queria mudar
queria voltar



aceitar

deixar que o tempo te faça mudar

saber esperar...
(Rodrigo Leão-"alma mater-a casa"
foto: lilya corneli"untitled")



sexta-feira, 21 de julho de 2006


- Estou? Estás aí?

Desculpa... é que estava a ver-te mas não te vi!





















(foto: rossi mechanezidis "play figuren1")

quarta-feira, 19 de julho de 2006


no tempo em que os barcos eram de papel
éramos nós que fazíamos ondas com os nossos pés pequenos
e nelas embalávamos o corpo cansado de tanto correr e brincar...

de tanto rir e chorar...

trazíamos numa sacola a tiracolo, todo o tempo do mundo que íamos semeando em punhados por onde passávamos...

perguntavas-me tu então:

"- e os barcos? os barcos de papel não naufragam?"

e eu respondia-te com todo o carinho:

- os barcos de papel rijo amolecem no bater das ondas que fazemos com os pés...
diluem-se na água e seguem o seu curso rumo ao mar...

"- e não ficam tristes?"

- não querido, não ficam tristes porque se perdem no mar grande...

"- e não têm medo?"

- têm! têm muito medo! mas pensam:
agora o mar tem com ele os nossos sorrisos
e é feito das ondas que fazemos com os pés para amolecer os barcos
que eram nossos e que agora são dele

do mar...
e o mar é sempre tão grande...
tão maior do que nós que nunca se pode achar...


mas olha...
dorme agora pequenino, dorme como se estivesses a boiar...
no mar de papel... no mar grande de papel macio...

e tu ficavas mais descansado com a grandeza do mar...
como se sempre tivesses tido mais coragem do que eu...




depois, afagava-te os cabelos até adormeceres,
saía pé ante pé do teu quarto para não perturbar o sono livre, tão profundo!
(como o mar de papel)

apagava-te a luz do candeeiro baço para te devolver a escuridão...

(nunca te deixaria de luz acesa meu querido... só na escuridão se pode procurar a luz...
queria tanto que a procurasses quando "fosses grande"!!!)

só na espuma do mar revolto se encontram os restos de papel
dos barcos que naufragaram em nós...





(foto: aleksei pecknikov "untitled")

não imaginas...
sim! não imaginas...

o que o teu falar calou em mim
o que o teu calar falou em mim

o que a tua ausência me tornou presente...
















(somos poços imperceptíveis cujo fundo não se vê...

...pontes... só nos restam pequenas pontes...
tão frágeis que são...)




(foto: mad alice "the time you run is too insane")

segunda-feira, 17 de julho de 2006


a minha vida é uma batalha interminável

até agora quase sempre saí derrotada...

fica-me o doce sabor de nunca ter negado uma luta...


(não se pode ser derrotado antes de lutar...
até os vencidos têm nome...)










(foto:maia "ma souer méchante")

quinta-feira, 13 de julho de 2006




" (explicavas-me delicadamente:)

-jogamos sempre de lados opostos!

tu desse.
eu deste.

e procuramos não sei bem o quê entre o preto e o branco...


o que interessa é procurar...


se estás no branco - estás segura.

se estás no preto - o abismo
.

tens que empurrar-me para o abismo para não caires tu nele. essa é a regra mais importante!"


- humm...

e porque é que temos que jogar de lados opostos?


"- não faças perguntas idiotas!
porque sim!"


- e porque sim o quê?

"- humpf ( - só me faltava mais esta...)"

- porque não mergulhamos os dois no preto ou no branco?

"-ora, porque o preto e o branco são cores diferentes... não se misturam - é a lei!"

- qual lei?

"ora... ora... a lei do jogo... e agora continuemos..."

- porque não damos as mãos e caímos juntos no abismo?

"ora... porque... porque...
porque não... ficava mal...!!!
avancemos..."


-porquê?
eu e tu?
porque não? porque sim?
vá lá explica!!!

" (irritado) - fazes demasiadas perguntas pequena...

...em primeiro lugar não se dão as mãos!

isso não se usa!!! ora essa!!

e... também não se cai no abismo com alguém...

(embaraçado)
nunca vi isso pelo menos ...

- ahh!! já estou a perceber!

nunca vemos um anjo a cair
ele já está caído!

o abismo é a queda - é o anjo a cair
e cai-se sempre sozinho!


" (aliviado) -é isso menina! é isso mesmo!

CAI AGORA!!!
... mesmo sem jogares!!!
fazes demasiadas perguntas para meu gosto!



(foto: laurent orseau "playing table")

quarta-feira, 12 de julho de 2006

terça-feira, 11 de julho de 2006

terça-feira, 4 de julho de 2006


danço sempre sozinha e a minha dança é sempre o reflexo do chão onde me vou quedar...




















(foto:susan probst - untitled)

terça-feira, 27 de junho de 2006


Nunca te pedi nada a não ser o abraço de encontro ao teu peito frágil
poço da memória de que a vida é breve
pele encovada do tempo de não saber...

eterno efémero...

não me devias ter pedido em casamento, nem me devias ter dito que querias o meu ventre prenhe de um filho teu...

não, não devias...
(não podias ter feito isso... o não fazer...)

sabes que acredito sempre nas palavras...
que as carrego na ponta dos dedos com que afago o teu peito nu
e nele escrevo estórias...
(sim estórias com "e" só para te irritar, estórias inventadas no jogo das palavras que me deste, não tenho mais nenhumas e são tão poucas)

não tenho tempo
sabes que morri no dia em que te acreditei
no dia em que me penetraste a carne como se fosse uma coisa tua
e disseste que tinhamos que fugir para sermos nós

não, eu não quero fugir
eu não quero ser tua
nem de ninguém
nem de mim...

nunca casarei
nunca partilharei contigo da aliança inteira de ser
porque não sou nada

não, também não terei filhos
nem enteados
nem adoptados

o meu útero secou
e a vida amestrada que levo acabará em breve

descobri que o silêncio me protege de ser
e não me apetece ser o que quer que seja nesta terra infértil...

nem tua esposa
nem tua mãe
nem a mãe de quem quer que seja

não me apetece:
lembrar palavras
dizer palavras
pronunciar palavras
castrá-las em mim...

não, não me apetece nada

não quero o querer
não quero nada
só quero a ausência de mim...

(de me querer assim, de te querer assim tanto
AII!! eu não posso querer o querer, não posso pois não?!)

de ti.... só queria o abraço ao teu peito frágil e nu
para conseguir mergulhar nesse poço informe
e morrer afogada
nessa água que fizeste um dia brotar de mim...

deste nada que sou
(não quero ser nada... cala-te para sempre sim?)

sábado, 24 de junho de 2006

O medo


Soluçava de desespero subindo a serra

Soluços secos que não deixavam passar o mínimo de lágrimas

“Venho falar-te dos meus medos”

subo a serra de um fôlego só para chegar ao topo

“Venho falar-te dos meus medos”

estou febril e na cabeça mistura-se tudo o que não sei…

“Venho falar-te dos meus medos”

(Abraça-me por favor

Abraça-me por favor)

“Venho falar-te dos meus medos”
– Tenho medo de ti”

- Porque é que tens medo de mim? – perguntas

Porque me disseste que era perigoso

( vais para a cozinha e retiras calmamente a gordura de pratos que nunca lavaste;

noto que tens um desenho de infância numa porta traseira que não sabes onde está – ainda não descobriste – ali!)

Tens o segredo de mil anos guardado na tua cabeça

Tens também a marca do medo de que alguém ouse sequer gostar de ti…

E tens um quadro branco por acabar

Perguntas-me o que fazer…

Respondo-te que já sabes a resposta…

Deito-me inebriada na tua cama…

(Preciso reclinar a cabeça

Preciso dormir)

Olhas-me mas só às vezes fazes o silêncio que é meu…

Desta vez não tremes

Já não temos medo!

Beijas-me e eu não te beijo

Paras e não quero que pares

Olhas-me e fecho os olhos

Somos um do outro apenas por cinco minutos e não sabemos se queremos ser

Sabemos tão pouco…

(2003)

(foto:bogdan jarocki "human and expectation)

quarta-feira, 21 de junho de 2006












Não sou eu que não conheço o abismo

És tu que não queres saltar!!


- Salta!!!! (eu empurro-te meu querido...)




(o grito inteiro é o som da queda no oco dos tambores da memória)


(foto:lilya corneli "patchwork series")

terça-feira, 20 de junho de 2006

caro senhor


Serviria eu apenas para saciar o vosso apetite voraz?

Serviria apenas para vos servir o manjar dos deuses caro senhor?

E após o banquete?

Queríeis que tocasse qual instrumento?

Em que nota?

Em que ambiente?

Queríeis que vos servisse o sangue de outros animais ou da minha própria jugular?

E agora senhor?

Estais saciado?

Mantende a energia que por ora vos detém senhor e tocareis muitas valsas para que outras senhoras dancem e vos sirvam outros banquetes…

De quantas servas precisais até ao fim de vossos dias senhor?

Quantas senhoras formosas e luzidias atraireis para essa vossa prisão de paixão efémera?

Quantas senhoras cairão no enredo invisível de vossos movimentos voluptuosos e sequiosos de vida?

Estais contente com a vida senhor?

Com a vossa vida enleada de uma liberdade sequiosa de prisões…
sequiosa e distante do constante agrilhoar das senhoras que ora vos servem…

Peço-vos que olhais essas senhoras nos olhos…

Senhoras de olhos brilhantes semelhantes à luminosidade da vossa pele…

Não olheis apenas o brilho,

Não vos detenhais apenas na cor ou no formato pois tais elementos são apenas superficiais e qualquer um,
qualquer outro senhor os pode decifrar…

Detenhai-vos na profundidade dos olhos brilhantes que vos penetram…

Olhos lavados da pureza momentânea que só o amor consegue trazer…

Sedes agora capaz de trair essa pureza apenas pelo prazer momentâneo que quereis saciar?

Sedes agora capaz de continuar a saciar-vos dessa pureza sem a perceberdes?

Interrompei o banquete pois o suculento sangue que essas senhoras vos servem pode coagular ao inundar-se de outros sentimentos que a alma não busca e que surgem no pairar frio de olhos agora baços

Deixai essas senhoras vislumbrar agora os olhos frios e olhai-as uma vez mais nos olhos

Perscrutai a profundidade de cada pálpebra,
de cada pupila,
de cada menina nos olhos das senhoras…
dessas senhoras que vos imploram agora de joelhos pela paixão de outrora agora desfeita


Sede firme com elas!
Não cesseis de as olhar!
enxugai-lhes as lágrimas senhor e dizei-lhes olhos nos olhos,
olhos na profundidade dos olhos das senhoras,
dizei-lhes simplesmente a verdade do que vos vai na alma…

Dizei-lhes tudo mesmo que a verdade seja crua…

Peço-vos apenas que as olheis com os olhos que tiverdes no momento…assim evitareis a possibilidade que a paixão agora inerte se transforme em sentimentos irascíveis…

E aquelas senhoras que vos estiverem a servir o banquete, continuarão a servi-lo convosco…em vós senhor…

Não silencieis mais a vossa alma senhor, pois se o fizerdes serás tão pequeno quanto os pequenos… e o vosso banquete apenas será ilusório pois só vos saciará a vós…

a vós senhor, só conseguirei servir o sangue coagulado de um coração que parou há algum tempo…

Recordais o tempo em que muitas nobres e castas senhoras morriam por vós senhores?

Neste tempo em que vos escrevo, muitas senhoras, são mortas e continuam a deambular pelas ruas, pelas praças, pelas vilas, pelas montanhas e pelos mares.

São senhoras mortas por dentro por não terem visto perante elas,
olhos límpidos,
olhos claros,
olhos verdadeiros
nem que fosse de uma verdade que por momentos as fizesse sofrer…

Essas senhoras acabam por morrer silenciadas pelo próprio silêncio perpetuado por vós senhores,
pela falta de coragem que vós tendes…
pelo silêncio que vós teimais em continuar a sobrepor às palavras que poderiam ser ditas pelas vossas bocas,
pelos vossos poros,
pelas vossas almas ainda que distantes…

E olhai novamente para as senhoras que vos servem o banquete,
para elas divino,
para elas prenhe de elemento mais alto que a terra e o céu podem conter…

São essas senhoras que vos servem o banquete que tomais senhor!!!
porque não olhais para elas??
porque vos saciais apenas do envólucro do ser que elas ocupam senhor??

Olhai para elas senhor!!
Olhai simplesmente...
e entregai a vossa vida a algo mais!

(1998)

(foto: aleksei pechnikov - "against the river")

pai


Quando me aproximo de ti cobres-me de preto

Enterras-me num segundo como só tu sabes fazer

Mergulhas os teus olhos sem visão no álcool

Olhos mergulhados numa espécie de formol

Olhos numa prateleira junto a tantos outros olhos já sem vida

Pergunto-te pela vida

Enterras-me

Tento desenterrar-me do lodo

Escrevo, escrevo, escrevo

Compêndios, cartas, missivas que nunca lês

- Falta-me a visão - dizes…

- Falta-te a coragem - digo…

Desenterro-me e peço-te que lutes

Enterras-me…
enterras-te comigo em covas separadas…
sempre separadas…

Conheço-te desde sempre… conheço-te por te encontrar num beco qualquer sem saída…

Peço-te que caves uma saída
no lodo, na terra, na lama…

- Luta! Luta! Luta!
Estou aqui para que lutes
Peço-te que lutes

LUTA!

Circula em mim o teu sangue,
depurado,
coagulado daquilo que foste…

-Porque é que desististe agora??? LUTA!!!

Dou-te a seringa do argumento
a seringa que precisas para ver…

Não te injectas
não consegues
tens medo

De falhar
de ficar sozinho…

Afastas-me com o argumento dos remorsos que terei quando deixar de ser quem sou…


-Quem sou eu pai?

Que nome tenho?

Que idade?

Que sabes tu de mim?

Olha para mim nos olhos pai!!!!!

OLHA!!!

- ESTOU CEGO CARAÇAS! SEMPRE ESTIVE!!!!!!!!

(2003)

(foto:bogdan jarocki "handmade")

segunda-feira, 19 de junho de 2006


que fazer a uma mãe
com o filho dentro morto
vazia de nunca o ter?...

(a morte de um filho é sempre a morte maior)















(foto: gabriela iacob "hear my dream")

segunda-feira, 29 de maio de 2006


(epílogo)
"traz pela mão a sua própria derrota

quando entra na guerra do cenário
senta-a ao seu lado, a um flanco


o actor puxa então a palavra
com dedos frágeis e muito medo de nada
sai-lhe o sangue por inteiro sílaba a sílaba

depois de uma pausa imensa onde cabe o estrondo
e ele de olhos fechados, sempre de olhos fechados,
comprimindo o gesto todo do ar
para começar a dizer esta coisa tão dura
esta coisa ferida de ternura


uma a uma, as palavras

todos os rostos do mundo vêm ver o rosto do actor

ver como a sua boca é transparente
como ele abre o coração do silêncio
e se ergue desse chão minado
de abismo e vultos repentinos


o actor não tem nome
o actor jamais poderá ter nome

a sua vida é muda, secreta, inflamada


o actor mistura lágrima e sorriso

como se depois tudo fosse verdade

como se depois ele não soubesse mais

onde fica o riso e onde
pertence o choro


quieto agora o actor aproxima-se

o calor que se desprende do seu corpo

arrepia se o tocamos


e no entanto o seu pulso existe

o actor está sentado ao lado da derrota

porque a loucura é real junto dos homens

e as palavras ferem muito mais que o luar
este brilho que o actor propaga em redor

pousando camada a camada
numa grande solidão amarrotada

agora o actor recolhe as mãos

e elas lhe estremecem a intimidade

como se houvesse desaparecido o sítio de as ter
na qual é preciso andar como milimétrico cuidado

para não quebrar o vidro frágil da alma

o actor pega na derrota pela mão

e sai para fora dos lugares

suspenso num qualquer instante frio
onde só resta uma cama muito antiga

para depositar a sombra que fica

de tanta luz"

vasco gato
in" imo",2003
edições quasi


(foto: bereni
ka - "little washing")

quinta-feira, 25 de maio de 2006



"- tem cuidado!!! se varres os pés nunca mais te casas!!!"

um dia hei-de varrer tanto os pés
tanto,
tanto
e com tanta força!!

que eles ficarão bem presos à terra!
a escavar raízes fundas !!

já é tempo desta cabeça se deixar de ilusões!

(o branco é-me apenas a cor emprestada para permanecer lado a lado com as almas perdidas (irmãs minhas...muitas...)

não me apertes...
desaperta-me...



(foto:lilya corneli - "after")

quarta-feira, 24 de maio de 2006

uma vez visitei um campo de concentração na Bélgica
e das coisas que mais me ficaram na mente
não foram as salas, ou os objectos de tortura,
ou a energia ruim que lá se sentia

(lembro-me disso lembro, e era de arrepiar...
mas não é isso que mais retenho...)


lembro-me de um campo verde em volta
(quem não soubesse achá-lo-ia um local belo... e não deixa de o ser...
estranho sentir este...)


lembro-me sempre de umas traves de madeira grossas
espetadas no chão
no meio do verde
em fila

lembro-me de tocar nas traves
de sentir a madeira rugosa seca do sol
de envolver com a ponta dos meus dedos
cada sulco esculpido pelas balas
e de sentir um calafrio (vários)



às vezes
não sei bem porquê
surge a imagem de "uma eu" nesse campo
há muito tempo
talvez no início de outros tempos
talvez nem fosse eu,

outro alguém...

sozinha
amarrada a uma das estacas de madeira

alguém em frente a apontar uma arma

um olhar de pânico
a nudez do medo

vejo (quase sinto) cada bala a trespassar várias partes do corpo

em câmara lenta
muito devagarinho


o rasgar da pele
o sangue a esvair-se lentamente
num braço
numa mão
no ventre
no peito

as balas sucedem-se
várias
uma de cada vez (vêem-se lentas a penetrar cada parte do corpo frágil
- sim, tão frágil este corpo)


o filme passa devagar na minha mente
o filme passa devagar à minha frente

o corpo a contrair-se a cada bala
pendurado pelas mãos que o seguram
as golfadas de sangue a sairem (me) pela boca

o filme passa e eu estou de fora a ver-me no meu próprio filme
serei eu assim? outra vez...

imagino isto muitas vezes e não sei porquê
(nunca soube...)

as golfadas sucedem-se em vómitos compulsivos mas lentos
imagem sempre lenta


vermelho líquido no verde do campo
esguichos na trave de madeira rugosa
vejo a minha mão
- o eu de fora a ver-
a tocar o sangue ainda quente com a ponta dos dedos,
sangue nos sulcos da trave de madeira,
madeira ainda fresca...

(-foi há muito tempo não foi?
- não s.- foi agora!)


sob pano de fundo
o campo continua belo,
verde,
algumas flores brancas,
nevoeiro
e uma música de arrepiar que nunca soube reconhecer...
muito bela também...

imagino esta imagem muitas vezes
não percebo porque nunca cheguei a morrer na imagem que vejo

morro sempre que a vejo!

quinta-feira, 18 de maio de 2006

às vezes gostava de não ter intuição...


o silêncio é sempre mais verdadeiro que as palavras

(hoje as ruas parecem-me uma música de Arvo Part.)

sexta-feira, 12 de maio de 2006


pudesse eu dar-te um beijo e abraçar-te
nesta hora sôfrega que lenta passa para que pudessemos trocar de vida num segundo que fosse...

assumindo eu a noite e tu o dia conhecendo eu o abismo e tu o branco do lençol da infância perdida
que te devolvesse a parte inquebrável que em ti cedeu...













(foto: berenika "night and day")

quinta-feira, 11 de maio de 2006


Tocava-te como se tocam as árvores seculares que não podem ser entendidas
que não se podem sequer perscrutar
por entre a densa folhagem que as envolve

árvores de raízes fundas,
mais fundas que a humanidade
mais densas que o pensamento
mais negras que o interior da terra...

tocava-te para não mais conseguir entender-te
para não mais conseguir entender-me
para não mais querer chegar a sítio nenhum

tocava-te como quem toca uma história inventada
um livro inacabado
um caco de vidro lacerante

mergulho os dedos no interior da árvore
da seiva pegajosa à qual fico colada

fico sempre presa
eu que não tenho raízes

eu, aquela em quem o vento bate
como se o lhano em mim fosse um argumento adaptado
a todas as árvores
a todas as raízes
a todo o negro que a terra comporta

e olho-te agora sem te tocar...

o sangue em mim tem sempre alguma coisa de verde!
(quem disse que a cor é uma coisa fácil?)


(foto: katia chausheva "untitled")

estes são tempos de calar e rezar...





















"o teu silêncio, oh Deus, altera por completo os espaços"
josé tolentino mendonça

(foto: sabine leve)

segunda-feira, 8 de maio de 2006


Há pessoas que nasceram para serem felizes...

há pessoas que nasceram para serem.

(foto: katia chausheva - "out of time")