quarta-feira, 21 de março de 2007


na mesma noite em que nos abraçamos
...há sempre um momento em que nos acendemos...
... há sempre um momento em que nos apagamos...

e regressando a nós assim ficamos... nem ler o ser sabemos...



(fotos:elena retfalvi - "bedtime serie")

terça-feira, 6 de março de 2007

laranja de voar


estava eu em casa
pela janela a olhar
quando vi no céu
uma laranja a voar




num primeiro impulso
chamei-a dali
era tudo tão estranho
que não me apercebi!




abri a janela
de par em par






uma situação destas
tem que se observar!!






e ainda a medo
espreitei pela janela






e por fim acenei
para que entrasse nela






esgueirei-me um pouco







e ela veio-me ter à mão







será ela um pássaro?
será uma laranja ou não?






olhei bem para ela
e perguntei-lhe - "quem és?"






e em silêncio ela olhou-me
da cabeça aos pés






mas esta laranja
era muito expedita






e moveu-me a mão
como arma de escrita






nada me dizia
ao meu fraco perceber






como se falasse em código
de nunca entender






e levava-me a mão
onde bem queria






dando-me a ilusão
que eu no ar escrevia






de repente saltou
e eu surpreendida...






que vai ela fazer?
estará de partida?






estava apenas a brincar
e saltou novamente






e veio repousar em mim
serenamente






decidi pegar-lhe
e guiá-la eu






em redor de um formato
que era igual ao seu






fiquei a compará-la
com a chaminé






do telhado da casa
do tio Zé






ela achou piada
ao que eu fazia






e tomou-me a mão
retomou o que escrevia






e eu já não sabia
se era ela a escrever






ou se era eu
que por ela escrevia






andávamos as duas
no limiar do medo






de que alguma perdesse
a mão ao enredo






e ali à voltas
do buraco negro






desapareceu-me a imagem...







como num bruxedo...







ficou-me na mão
o formato dela

vem laranja!! vem!!
retorna à janela!



e ela voltou
e mostrou-se enfim...






por dentro e por fora
-vês! só só isto! assim...






e eu tomei cada gomo
para não a perder






ingerindo o sonho
do nosso escrever






e estávamos as duas
neste doce partilhar






de termos aprendido
a escrever no ar






e quando por fim
olhei a casca vazia






cheirava a quente
e a maresia






voltei a fechá-la
para a recordar








memória habitada
do verbo amar!





- fim -
































quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007


repara:

ele - está à janela
cigarro preparado na ponta dos dedos finos
fumo no nevoeiro

ela - à janela está
segura insegura uma caneca de chá
quente no frio

ele e ela: olham o vazio de cada uma das janelas

que dão para o mar

os prédios colam-se tal como os olhares separados na mesma direcção


longe, longe...

solidão partilhada na terra de nunca saber


não, não sabem (agora) da presença um do outro
não sabem há muito daquelas mãos de penetrar
de apenas cuidar e partir
olhar fundo de nunca ficar


toca o sino da igreja

repara:

ninguém os pode salvar!




(foto:. nel . - lounge)