sexta-feira, 27 de julho de 2007

uma estória de amor











as verdadeiras estórias de amor
são sempre estórias de lobos
e meninas de olhos escuros
(bacidez táctil)





são os únicos que na companhia
entendem a solidão






(fotos:laurent orseau - "lou(p)s)




"Porque é que me olhaste?
Se me tivesses visto, ter-me-ias amado"

















(foto e excerto:olga roriz-"jump-up-and-kiss-me")

terça-feira, 24 de julho de 2007



uma estória pessoal:



de vez em quando
consigo libertar-me de mim

a treva ambulante
fica por momentos parada na berma

é então que apanho boleia
num carro imprevísivel de velho

ou então vou a pé descalço
sola dos pés a tocar o orvalho da erva mais fina


"pela estrada fora"








(foto:anais heinen - "untitled")

poema de amor liquefeito



amor,água,peixes, vermelho, sangue, artérias, magno, intenso, vibrante, pulsante, amor, frio, desvario, quente, morno, sol,areia, mar, oceano, rio, ribeira, frágua, água, líquido, esperma, berma, treme, geme, veste, despe, vespa, ai, ai, ah, ãh, maçã, árvore, vida, fruto, sumo, sangue, exangue, pulsante, vulva, fulva, pénis, ténis,roupa, espalhada, casa, janela, mar,ar,rio a passar, água, mágoa, blop na água,blop, blop, blop... até afogar...





(foto:taesang-"untitled")

segunda-feira, 23 de julho de 2007



preciso de alguém que me toque
por dentro
por fora

preciso de alguém que apenas me toque

preciso de alguém que não precise de mim...


(foto:katia chausheva -"the touching")

quinta-feira, 19 de julho de 2007


"A busca activa é nociva, não apenas ao amor, mas também à inteligência, cujas leis imitam as do amor. É necessário esperar simplesmente que a solução de um problema de geometria, que o sentido de uma frase latina ou grega surjam no espírito. Por maioria de razão, também assim com uma nova verdade científica, com um verso belo. A busca conduz ao erro. É assim com toda a espécie de bem verdadeiro. O homem não deve fazer outra coisa senão esperar o bem e afastar o mal. No tumulto que constitui a condição humana, a virtude autêntica em todos os domínios é coisa negativa, pelo menos na aparência. Mas esta espera do bem e da verdade é algo mais intenso do que toda a busca."

Simone Weil
in A Espera de Deus



(foto:michal matusiewicz - "the young monk in his buddhist-cloister room")

quarta-feira, 18 de julho de 2007



hoje queria que alguém me guiasse... livremente...
... assim... ao som de uma mazurka...

(de olhos fechados)



(foto:hugo lima - "mazurka")

terça-feira, 17 de julho de 2007

signal to noise




You know the way that things go
When what you fight for starts to fall
And in that fuzzy picture
He writing stands out on the wall
So clearly on the wall

Send out the signals deep and loud

And in this place, can you reassure me
With a touch, a smile while the cradles burning
All the while the world is turning to noise
Oh the more that its surrounding us
The more that it destroys
Turn up the signal
Wipe out the noise

Send out the signals deep and loud

Man Im losing sound and sight
Of all those who can tell me wrong from right
When all things beautiful and bright
Sink in the night
Yet theres still something in my heart
That can find a way
To make a start
To turn up the signal
Wipe out the noise

Wipe out the noise
Wipe out the noise
You know thats it
You know thats it
Receive and transmit
Receive and transmit
Receive and transmit
You know thats it
You know thats it
Receive and transmit
You know thats it
You know thats it
Receive and transmit



(letra: peter gabriel
foto: katia chausheva -"strangers in the night")




(http://obsessedbythissong.blogspot.com/2007/07/signal-to-noise.html)

quarta-feira, 11 de julho de 2007

quarta-feira, 4 de julho de 2007

dança, dança comigo
esta música que é a morte
o barulho inquieto
do inflamar dos dias

a vertigem do teu ser
quando em vão te esticas

infinito luar no lugar do nome

dança, dança comigo
voo imparável na sarça ardente

ergue-me apenas dos destroços
areia quente no deserto do fim





(http://obsessedbythissong.blogspot.com/2007/07/tabula-rasa-miguel-roblesarvo-part.html)

domingo, 1 de julho de 2007



talvez um dia
me seja dado compreender a luz
talvez um dia
quando a luz e o branco já não derem por mim...

quarta-feira, 27 de junho de 2007

play dead



darling stop confusing me
with your wishful thinking
hopeful enbraces
don't you understand?
i have to go through this
i belong to here where
no-one cares and no-one loves
no light no air to live in
a place called hate
the city of fear

i play dead
it stops the hurting
i play dead
and hurting stops

it's sometimes just like sleeping
curling up inside my private tortures
i nestle into pain
hug suffering
caress every ache

i play dead
it stops the hurting


(letra: bjork
foto:lilya corneli "black and white series")

www.obsessedbythissong.blogspot.com

terça-feira, 26 de junho de 2007



ao v.g. acerca de 47 e outros números



(se algum dia te encontrar por aí
numa rua qualquer desta cidade)

juro
sussurrar-te ao ouvido
um poema teu...





(foto:velislava - "sqnka i (koteshka)")

segunda-feira, 25 de junho de 2007


nascida do grande mar
entrincheirei-me num aquário improvisado
redoma plástica
transparência demente de ilusória
resguardo das ondas mais traiçoeiras




tão longe do tempo verdadeiro
adiada da vida que sou




rebentem-me este saco informe!
apaguem-me os contornos de mim!






(foto:taesang-"untitled")

segunda-feira, 18 de junho de 2007



nunca percebi grande coisa deste mundo



desde pequena que olho para as coisas
como se fossem lugares parados
sombras por abrir na mais alta escuridão

a minha mãe dizia-me que eu era uma criança calada
ensimesmada no mundo por vir
ficava quieta até à frente do aparelho
onde normalmente um homem dizia as notícias da última noite

nessa altura talvez eu ainda não soubesse o que era a noite
(talvez intuisse só que ela existia... por ali...)

sabia das sombras mais escuras da casa
de como eu as desafiava no pequeno corredor de volta ao quarto



- porque não acendes a luz filha?

- e se um dia não houver lâmpadas? nem velas mãe?




e ela calava a minha escuridão com o toque de um dedo
não percebia que eu queria ver para além dali
daquela luz que me parecia mentida
fundida nas paredes do quarto
sombras forjadas à espera da manhã


desde pequena
eu queria atravessar o escuro
o lugar parado que ninguém queria atravessar
(o que haverá para além mãe?)

e continuamente ela acendia a luz como se me guiasse
na ilusão que eu esquecesse as madrugadas mais fundas
onde ela intimamente me sabia acordada

embalava-me na noite com aquela lâmpada improvisada
como se me quisesse ocultar o mais puro segredo
como se me adiasse o destino
só por mais um tempo


nunca percebi grande coisa deste mundo


preso à ideia de liberdade
pacificado na mais funda guerra


que sufoca na luz
e perpassa as trevas como um alvo a abater






sim,conheço pouco do mundo...

viajo por dentro
onde nunca me pedem bilhete

já fui à china e ao japão
ao deserto e a veneza

já tive sede e fome

e sobrevivi quieta
no abismo de mim

viajei parada
como se andasse milhas
e a acalmia dos dias
é a tramutação da mais funda dor


agora sei o que é a noite
e a escuridão
e gosto da tristeza como se de uma irmã

os únicos passos que dei foram
nesse corredor pequeno da casa que me leva ao quarto


não consigo dormir perante a sombra mais escura
não consigo parar a dor por me mostrar tão além...




nunca percebi grande coisa deste mundo



e vou ficando por aqui parada
quieta como quando te fazia perguntas:

- o que haverá para além da noite mãe?



(foto: marilia campos)


os anjos caídos
são sempre os anjos mais altos...

são os que encerram o voo das almas
e em segredo sentem o seu quebrar
no mais íntimo e fundo de si...


(foto:lilya corneli)

terça-feira, 12 de junho de 2007



em silêncio a menina vermelha fala com os lobos baços
e eles escutam a sua voz...

...nas noites mais escuras...


(desenho inspirado por gaston vinas
letra do desenho - radiohead)
www.obsessedbythissong.blogspot.com

quinta-feira, 7 de junho de 2007

"Like Spinning Plates"




While you make pretty speeches,
I'm being cut to shreds
You feed me to the lions,
a delicate balance

And this just feels like spinning plates
I'm living in cloud cuckoo land
And this just feels like spinning plates
My body is floating down the muddy river













(letra: radiohead
foto:darren holmes - "pearl soft life")

www.obsessedbythissong.blogspot.com

quarta-feira, 6 de junho de 2007



junho volta a ser
um mês sem rosto

dias de calar





o silêncio e quietude das pedras




(foto:dorota wroblewska - "faces")

terça-feira, 5 de junho de 2007


aos teus ombros colocarei somente os meus dedos flutuantes, vazios de qualquer pesar...

(foto:velislava "division by mirror2")

segunda-feira, 4 de junho de 2007

mergulha em mim






mergulha em mim
neste aquário informe
nestas paredes de vidro
frágeis
tão frágeis prestes a quebrar

mergulha em mim
com as tuas mãos pesadas
com o teu pulso forte
com a decisão de um peixe
prestes a tomar uma presa

mergulha em mim
neste líquido estranho
nesta água impregnada
retida
para ser tomada

mergulha em mim...

sabes da grandeza do oceano
e de como isto é uma gota
em que não poderás satisfazer-te
nunca neste rio parado


ainda assim
peço-te
mergulha em mim
para num segundo podermos
liquefazermo-nos amor
em amor
os dois...

(foto:helena almeida)

sábado, 2 de junho de 2007

arrábida -27 de maio de 2007




um bocadinho de céu... e a coroação das crianças... sempre!



"Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. Achavam-se então em Jerusalém judeus piedosos de todas as nações que há debaixo do céu. Ouvindo aquele ruído, reuniu-se muita gente e maravilhava-se de que cada um os ouvia falar na sua própria língua. Profundamente impressionados, manifestavam a sua admiração: Não são, porventura, galileus todos estes que falam? Como então todos nós os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? Partos, medos, elamitas; os que habitam a Macedônia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto, a Ásia, a Frígia, a Panfília, o Egito e as províncias da Líbia próximas a Cirene; peregrinos romanos, judeus ou prosélitos, cretenses e árabes; ouvimo-los publicar em nossas línguas as maravilhas de Deus!" (at 2,1-11)
















- vulto negro de onde vens?
que nesse negrume me velas

- venho levar-te às entranhas
no mais profundo que há nelas

- vulto negro tenho medo
de ao espelho para ti olhar

- sou só isto, vem a mim
nos caminhos te hei-de levar

- vulto negro, eu não queria
entregar-me a ti assim

- abre a janela menina
atira-te e vem até mim!

- vulto negro na treva me guias
porque estás ainda aqui?

- estou aqui para te dar no negro
o branco que há em ti...

quarta-feira, 30 de maio de 2007

domingo, 20 de maio de 2007



há espaços em mim que ninguém nunca poderá penetrar


e não...


não é uma parede invisível


ou um muro de pedra intransponível









são espaços em que nem eu posso assomar


onde nem eu posso algum dia entrar...













(foto:paulo escoto
série "renaissance-memória habitada a seis mulheres")

domingo, 13 de maio de 2007

estou a transformar-me numa personagem de ana teresa pereira

(quando mordisco o lábio deita sangue...)

sábado, 12 de maio de 2007




The victim was a woman a woman in her primeThe suspect was a lover he had no alibiThe weapon was a phone call in the dead of nightYou know I never really thought you had it in youThe case continuesThe suspect was a cruel self-motivated manHe held the victim's heart in the palm of his handThe motive is a mystery I'll never understandThe final cut went deep down to the very sinewThe case continuesWhy did the blood-stained sheets that burned turn quite so coldMy only crime was passion wild and uncontrolledIf sex were an Olympic sport we'd've won the goldOh tell me that there's still a little love left in youThe case continuesThe final cut went deep down to the very sinewThe case continuesThe victim is in shock there's not much more to sayThe suspect made a smooth and silent get-awayThe scars may slowly heal but they'll never go awayI only hope that one day you understand just what I've been throughThe case continuesI only hope that one day you understand just what I've been thoughOh tell me that there's a little love left in youThe case continues

(música:ute lemper "the case continues"
foto:cyril auvity - cherry)

domingo, 29 de abril de 2007



"(...)as mulheres desta família
não nasceram para ser felizes(...)"





















(federico garcia lorca, "a casa de bernarda alba"
foto:angelle-"finie")

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Mar




Passo e amo e ardo.
Água? Brisa? Luz?
Não sei. E tenho pressa:
levo comigo uma criança
que nunca viu o mar.









(poema: eugénio de andrade
foto: dorota wroblewska - sea stories)

domingo, 22 de abril de 2007



pensei um dia encetar um poema nas paredes da casa





descobri então que não sei escrever

descobri então... que nunca terei casa...













um dia pedi-te:

"tira-me estes espartilhos!"


e tu desfiaste os cordões sujos


um a um


e vendeste-os ao preço justo na feira da ladra


onde compravamos vestidos leves no meio do verão!!















assim:

desvias teimosamente o olhar onde a intuição habita...

tão perto do que não queremos ver...

instante de olhar a antever aquilo que ninguém codifica





canto do olho atento ainda por desvendar

peito esventrado de ver coisas que ninguém sabe imaginar...

fica por aqui...sim?
a mim basta-me o teu breve olhar...

sexta-feira, 13 de abril de 2007



"Pré-scriptum :





aaaaaaaaaaah, sabe, a elevação cristã inclui a descida ao inferno, a que entre outras coisas naturais e sobrenaturais, corresponde a revelação e tomada de consciência de todas as nossas condições e possibilidades de existência. É a partir da realidade integral do ser humano que nos transfiguramos, e não do retiro imaginário para ideias elevadas que não suam nem desesperam. Nesse sentido, antes um mal real, que um bem alienante. O primeiro, pode transfigurar-se em Deus ; o segundo, não tem transfiguração senão imaginária : a projecção de si numa representação imaculada sem merda nem esperma, sem ódio nem raiva, sem medo nem confusão, etc

A verdade que liberta, inclui a verdade de si. Ou se preferir, assumir-se como pecador não pode ser apenas de boca : trata e instiga a uma tomada de consciência, e um vir à tona e à expressão – a realidade da nossa finitude que se falha por tensão inata de quebrar os seus limites (e o problema é que nos tomamos por aquilo de que somos apenas imagem e reflexo).





Scriptum :





Possa a minha pequena voz nunca trair por recate ou pudor, a verdade poética que cada personagem grita ou canta, da pornografia ao sublime. Aqui trata-se do plano não existencial que é a experimentação poética : expressão das possibilidades sem retenção, o que logo por si só implica uma suspensão da moralidade. A possibilidade (seja um assassínio ou um surto psicótico) quer-se levada ao seu limite sem retenção nenhuma. O que, atente-se e dada precisamente a suspensão moral, também não indicia aprovação moral da possibilidade, como é evidente.





Pós-scriptum :





"Vaidade, é tudo vaidade. Vaidade e medo da morte." + "Verdade, é tudo verdade. Verdade e medo da vida" = "Veneno, é tudo veneno. Veneno e medo de si."

(às vezes quando "falas" apetece-me calar...

obrigada vitor por seres esse reflexo)



(texto:vitor mácula
comentário a"halo por trás dos prédios"
9 de Abril de 2007
foto:andrzej furtak -"praying hands")

quinta-feira, 12 de abril de 2007



fala-me amor,


do encanto das quedas

e do díficil das flores murchas

de como não sabemos ressuscitá-las

mesmo que lhe falemos aos ouvidos quietos das pétalas quebrantas




fala-me amor,


de como é frágil este lugar onde nos sentamos

de como amanhã podemos já não estar aqui os dois

(nunca seremos um só sabias?)




fala-me amor,


das tempestades

do desbastar dos campos quando a terra já não é fecunda

de como a semente para nascer tem que morrer primeiro




diz-me amor,


peço-te

que nunca me faças feliz aqui

pois só nos resta sempre estarmos assim lado a lado




e saber amor,


deste não saber

que o amor verdadeiro não é uma coisa nossa




saber amor,


do amor

apenas a falta que ele nos faz...

(foto:elena retfalvi)

quinta-feira, 5 de abril de 2007


e quando eu desisto de lutar
por já não haver força nem pele
que resista

(tão magra... costela primordial quebrada)

e num rasgo te entrego toda a minha vida
para que tu decidas

vens, oh deus!
assim de mansinho
e carregas-me ao teu colo com se fosse um abraço

e caminhas por mim na noite escura
até entregares a minha alma à luz vivida

até que eu acorde da sombra amanhecida!

(desculpa deus estes olhos tão baços)





(foto:katia chausheva -"night-piece")

quarta-feira, 4 de abril de 2007


não quero ficar num sítio onde não possa chorar e espernear!!

não quero!!





















(foto:geoffroy demarquet - "untitled")

segunda-feira, 2 de abril de 2007


sim!!
quero tirar-te das amarras que te prendem!

e o meu querer é tão pouco!

e estas mãos não têm força!!

estou a esforçar-me não vês?





não podes ver- estás morto!!

Porque é que ainda acredito
que viverás?
porque é que ainda acredito no que os meus olhos não vêem?

Porque é que ainda acredito que te vais levantar dessas tábuas?

estás morto!
toda a gente me diz que estás morto!

e estás aqui, cá dentro tão forte...
(será isso viver?
será que viveres em mim basta?)


ouço os gritos daqueles que me dizem- "desiste!"
"desiste! desiste! desiste! desiste!"

ouço o escárnio daqueles que me dizem: "nada a fazer!"

"nada a fazer!""nada a fazer!""nada a fazer!""nada a fazer!""nada a fazer!""nada a fazer!"

"é assim a vida! é assim a vida! é assim a vida!"

qual vida? estás morto!

se é assim a vida porque estás morto?


nunca percebi isto de ser!
nunca percebi isto de estar aqui!
não me deixes ficar aqui sozinha!
peço-te:
não me deixes ficar aqui sozinha!

tenho medo de estar aqui!
tira-me daqui!

são tantos!!
sou só uma - vês?

não podes ver-me!!
estás morto!!
matei-te!
mataram-te!!
mataste-te??

(também tu perdeste as forças?
tu que és deus perdeste as forças?
que vai ser de mim? sou só isto!)

não há refúgio nesta terra infértil
não crescem flores aqui!

porque é que tens flores em volta?
porque tingiste as flores de sangue?

vê o que fizeste!
isso não se faz!!
diz-me o que fazer!
diz!

eu continuo aqui a tentar soltar-te
a tentar soltar-me... meu deus!!
não vês?

abre esses olhos!!
se és deus abre esses olhos!!
abre esses olhos para me veres assim tão pequena!!
estou a esforçar-me não vês??

estou a esforçar-me e tu estás morto!!
que estou eu a fazer aqui??

não vês?? estou aqui apesar do grito!!
estou aqui apesar do luto!!
estou aqui e nem sei se estou!!
já não sei de mim!!!
estou para aqui a tentar retirar-te este cravo!!
está preso entendes?
estou presa entendes?
aqui...

e ainda falta o outro!!
e eu já não tenho forças!!
e grito!
não ouves?
não vês?
abre os olhos!!


há muitos gritos em volta!!

"desiste! desiste! desiste! desiste!"

por favor descobre esta voz no meio dos gritos!
são tantos!

"nada a fazer!""nada a fazer!""nada a fazer!""nada a fazer!""nada a fazer!""nada a fazer!"

e choro de te ter perdido!!
doi tanto!! e tu aí cravado!!
e está tão escuro aqui!

sou tão pequena!
só tenho estes braços e estas mãos sem força...
não vês que não tenho força suficiente para suportar este madeiro??

estás morto??
diz-me ao menos se estás morto??

tu que és deus!!
diz-me se és deus??

sai daí!!
levanta-te!!
não consigo sozinha!!
não vês??

quero sair daqui!!
tirar-te destas amarras!
sair destas feridas que me prendem aqui...

não consigo ver sangue!
tu sabes!!
tu sempre soubeste que eu não suporto ver sangue!
pára de sangrar!
tu estás morto!!

porque é que me fizeste isto?
porque é que eu continuo aqui?


AAAAAIIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!




















olho para ti exangue
e trago no peito a decisão
que me trouxeste no calar!!



mesmo que não te levantes
quero ver-te solto na morte!!


(será isto viver?)




(foto:karin elisabeth - "crucifixion")

quarta-feira, 28 de março de 2007


(talvez tenha percebido só agora...)



que a fé e o amor não são "coisas" de atenuar vida nenhuma



são elas as verdadeiras "coisas do Alto"












(...é a dor levada ao mais Alto dos cumes...)










(foto:michal matusiewicz - "afghanistan")

segunda-feira, 26 de março de 2007


vem assim recolher o meu corpo das águas frágeis

de um copo

de uma taça

da cor rubra do vinho
da vida que me deste num presente de escorrer por entre as mãos



vem assim recolher-me no mais íntimo do líquido

no mais profundo de madrugadas embebidas demais...
em que te recolho eu
(trocando os papéis)

olhando os teus olhos já mortos
que todos os dias vejo perto demais


(sinto-te a ir...)






(foto:liliana dvorianova - "sea")

quarta-feira, 21 de março de 2007



"Little children snuggle
under soft black stars

And if you look into their eyes
soft black stars

Deliver them from the book
and the letter and the word

And let them read the silence
bathed in soft black stars

Let them trace the raindrops
under soft black stars

Let them follow whispers
and scare away the night

Let them kiss the featherbreath
of soft black stars

And let them ride their horses
licked by the wind and the snow




And tip-toe into twilight
where we all one day will go

Caressed with tenderness
and with no fear at all

Their faces shining river gold
brushed by soft black stars

And angels' wings shall soothe their cares
And all the birds shall sing at dawn
Blessed and wet with joy









You and i will meet one day
Under the night sky
lit by soft black stars"


(letra:current 93
cover: anthony and the johnson's
"soft black stars"
foto:angelle - "finie")