domingo, 31 de maio de 2009

em tempos de crise... sou gaja de venetas!!!


Who The F--- (4-TRACK) - PJ Harvey

"Who The Fuck?"

Who the fuck do you think you are
Get out of my hair
who the fuck do you think you are
Comin' round here
who the fuck who the fuck
who the fuck do you think you are

Get your comb out of there
combin' out my hair

I'm not like other girls
You can't straighten my curls
I'm not like other girls
You can't straighten my curls
No!

Who the fuck you tryin' to be
Get your dog away from me!
What the fuck you doing in there
Get your dirty fingers out of my hair

Who who who who
fuck fuck fuck you

I'm free, you'll see
I'm free, you'll see


(letra e música: pj harvey)

terça-feira, 12 de maio de 2009

nativa-cigana






ontem alguém disse que eu tenho ar-de-nativa-cigana...

sim...

lembrei-me deles







a sanfona em prados verdejantes
uma mazurka "relentada"
o compasso dos gestos balançados num corpo-sem-dono
un-deux-trois
ma-zur-ka...
un-deux-trois
corp-sans-moi











(foto: "la machine")

ela cuida

ela sabe onde se movem os líquidos
como evadi-los na mais estreita das veias
até secar
até se extinguir de vez.










(foto:roksana mical - "untitled")

terça-feira, 28 de abril de 2009

incêndio interior

há uns tempos atrás tive umas colegas que me chamavam carinhosamente a "bombeirinha"...






foi sempre o que fiz da vida...

ando por aqui e por ali
a apagar os mais pequenos fogos



enquanto me incendeio...

domingo, 26 de abril de 2009

um filme, duas frases...

"um país sem poetas é um país derrotado"




"matar um homem para defender uma ideia não é defender uma ideia
é matar um homem!"









in, "a nossa música"de jean luc godard

domingo, 19 de abril de 2009

no gelo que queima também faz frio










(foto:sigur rós)

duas de sophia - a grande

Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal

"Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre."









Soror Mariana

"Cortaram os fenos
Agora a minha solidão vê-se melhor..."







sophia de mello breyner andresen

like spinning plates


Like Spinning Plates - Radiohead





"While you make pretty speeches,
I'm being cut to shreds
You feed me to the lions,
a delicate balance

And this just feels like spinning plates
I'm living in cloud cuckoo land
And this just feels like spinning plates
My body is floating down the muddy river"












(mais uma volta e a menina não paga!)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

explicação do alpendre





"porque em seu peito nunca tive aberta
a veia exacta para lhe ser sangue"

















daniel faria
in, poesia
edições quasi




(foto:inês ramos - "ballad of reading gaol")

terça-feira, 14 de abril de 2009

acabaram-se, por ora, os posts de auto-comiseração

é altura de pegar nas armas e voltar à luta!


não fosse este um blog de "vómitos emocionais"
teria que apagar tudo

mas...
a minha escrita em blog serve para isso mesmo
para colocar no écran a "tritura-torturada-azeda"
até deixar o estômago vazio
pronto para um jejum de purificação



não sei que águas estas depois da tempestade
mas atento... à lentidão fluida do líquido
ao resvalar da rocha mais quêda no leito, na praia
para aprender a largar do bote
a largar do-que-resta-jangada o que mais a afunda
seguindo em rumo incauto -única via de quem quer viver!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

por falar em abril...

"faz-me espécie" as pessoas que vivem presas à liberdade que têm...

às voltas de lugar nenhum

quando te perguntei se voltavas era disto que eu falava:

o vazio no lugar do coração
lado esquerdo da vida em abismo
nenhuma letra a cumprir o poema
pele enrugada na nudez de todos os lugares assombrados
nenhum chão

segunda-feira, 6 de abril de 2009

"(...) faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e uma luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e tranquilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro - pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver. Lembrou-se de escrever a Ulisses contando o que se passara, mas nada se passara dizível em palavras escritas ou faladas, era bom aquele sistema que Ulisses inventara: o que não soubesse ou não pudesse dizer, escreveria e lhe daria o papel mudamente - mas dessa vez não havia sequer o que contar."









clarice lispector
in, "uma aprendizagem ou o livro dos prazeres"
relógio de água

sexta-feira, 3 de abril de 2009

a felicidade é uma questão hortícola

houve uma altura da minha vida em que eu pensava que a palavra derrota nunca existiria. nessa altura era gorda e passeava-me pomposamente com o meu orgulho por tudo onde era sítio. era ainda mais detestável do que sou agora e podem perguntar à vontade, como é que isso é possível?? (mais ainda???) mas juro-vos que não sei responder.

nessa altura "a minha entrada era a saída de muitos" e nessa entrada eu saía sempre ilesa a qualquer tipo de catástrofe.

a primeira vez que me lembro da morte foi a do meu avô. acho que a minha mãe estava grávida da minha irmã mais nova, e isso justificou para muitos o facto dela em pequena entortar os olhos até ao tutano e dizerem que tinha sido dos nervos acumulados pela minha mãe nessa altura. agora usa lentes de contacto e tudo está resolvido.

da segunda vez a morte foi mais rebuscada e levou-me a irmã mais velha, que eu amava de coração inteiro, e partilhava comigo um quarto exíguo no 2º bronx daqui da zona. mas eu não me convenci logo da derrota. era teimosa (ainda sou muito) e inchada de orgulho. talvez por isso mantivesse o porte enfartado que me caracterizou até há bem poucos anos. um pouco mais tarde, quando me apercebi melhor do sucessido (sou lenta na consciência) emagreci alguns quilos e soube (aí sim pela primeira vez) o que era a queda.

parecia que só a partir daí começava a perder coisas.

a identidade por exemplo, tive uma crise e depois tive muitas mais (ainda tenho).
a ingenuidade, por teimosia, só a perdi mais tarde. mas acho que foi desde aí que comecei a simular que ainda a tinha (o que é pior que perdê-la).

depois perdi uma tia e passado pouco tempo um primo de linha directa que era por acaso aquele que eu mais simpatizava.

perdi a minha madrinha que foi a pessoa que exageradamente mais me mimou e de quem eu fugia a sete pés (não gosto de demasiados mimos! hiaccc!!). perdi um colega da faculdade que era da minha idade e isso fez-me muita impressão.

entretanto perdi as contas às contas que a morte ia fazendo e percebi que ela me ronda desde sempre. desde os corredores da casa de onde fugi para me resgatar (será possível resgatar-mo-nos quando não nos temos?).
nessa mesma casa cuidei até morrer das minhas duas avós e percebi que a única distância entre mim e elas seriam alguns anos.

aprendi a ir perdendo.

perdi amigos que tinha, que não tinha e que julgava que ter.
perdi namorados (poucos...aliás 1 apenas...). flirt's (muitos - eu sempre julguei que eram namorados mas alguém me elucidou que não)

o meu acunpuntor diz que eu não tenho muito prazer na vida por ter a coluna torta e ser ligeiramente marreca. receitou-me uns chás e a leitura de alguns contos porno na net. eu até lhe dou uma certa razão pois simpatizo com a medicina chinesa. comecei então a ler algumas coisas muito mal escritas que eu pensava que não pudessem existir. (a vida abre-nos sempre horizontes mesmo que esses horizontes sejam limitados). tentei corrigir a "tortura" praticando yoga mas irrito-me sempre com a música ambiente supostamente agradável e não consigo relaxar. já tentei fazer em casa ao som de keith e de pj harvey mas a minha professora diz que não é muito ético (eu acho é que ela não os conhece). acho ainda que foi por essa mesma falta de ética que fui excomungada há uns anos e deixei de ser católica.

até seria budista não fossem os meus problemas de indisciplina com a carne e afins.

algumas pessoas dizem que eu tenho um karma muito pesado em cima, mas eu acho que é mesmo o meu corpo a pensar que ainda é gordo.

a semana passada perdi o meu pai, e acho que na semana anterior já tinha perdido o namorado e não sabia. (seria um flirt? não sou boa com conceitos.)

a minha mãe acha-me estranha. a minha irmã, seis anos mais nova, acha que devia "orientar-me" na vida, pois já tenho idade para isso, e que me estou a tornar numa hippie tonta. o meu cunhado opina que será difícil eu "arranjar um homem" devido ao meu ar "demasiado independente" - segundo ele isso assusta, e os homens não gostam de ser assustados! buuuuu!!

tenho uma grande amiga que diz que eu tenho traumas mas não sou traumatizada. nos tempos que correm, pelos vistos, isso é esquisito e devia tratar-me. todos devem ter um trauma, nem que seja o trauma de não ter traumas nenhuns.


enfim, posso dizer que a minha vida não é monótona e eu até sei fazer algumas escolhas: mudei de sintra para a rinchoa por causa de uma laranjeira e de um alpendre que dá para a serra. e com esta vista ao longe... longe... sonho um dia poder vir a ter uma horta de frutos biológicos (que está na moda e fica sempre bem)para sair finalmente do mundo, isolar-me e ser feliz!

da janela

descobri há pouco que existe um lidl no estádio de alvalade.

paisagem

vejo-os sôfregos. procurando os bancos novos vermelhos e azuis da cp. arrastam-se. talvez tenham que ir buscar os filhos às amas ilegais e remungonas por mais um dia de atraso no pagamento e na hora.

sento-me, sinto-me uma burguesa por me conseguir sentar em tão grande multidão. aquele ali passa fome, sente-se nos olhos que passa fome. (às vezes chego-me a sentir culpada por ainda ter pão na mesa quando chegar ao destino, mas enfim... o mundo não é perfeito e eu também não.)

gosto particularmente dos jovens pueris e no auge da vida a falar da crise e vagamente de abril, ao mesmo tempo que escrevem sms's às namoradas em telemóveis topo de gama pagos pelos pais-classe-média-baixa como sinal de avanço tecnológico.

dizem que a linha de sintra é insegura, mas eu sempre andei nestes comboios como se caminhasse no corredor da casa que não tenho. faz frio, e hoje até é bom vir no comboio em hora de ponta. aquece.

terça-feira, 31 de março de 2009


apesar dos vazios
sabemos pouco das mãos
e de como o nada as invade se as fecharmos
mais não digo
pois as palavras são escassas
e até os silêncios habitados
são agora difíceis de alcançar...









(foto:sophiarui - "por cada janela aberta se fecha uma porta")
























(fotos:sophiarui: "caminhas tão lento que não consigo seguir-te")

quarta-feira, 11 de março de 2009

por te despires despi-me







demorei a saber
que o lugar onde se enterram os loucos
é esse mesmo onde os vivos-de-lucidez-fria têm de sobreviver
caos apurado num lugar aparentemente limpo
palco nu
onde agora já não existem reis nem rainhas
nem qualquer trono que mande tocar uma marcha nupcial branda




ouço esta música... ouço-a...




no silêncio fingido da sala já não existem roupas que me sirvam
nem cabides onde me possa pendurar-boneco
estrangulamento-precoce-em-cabide-incerto
para seguir em frente
para ensandecer-bruta
barro por moldar
nenhum trono...







restas porém água-em-deserto-fundo...
três pontos em triângulo na face encostada
cova funda em queixo por desvendar...














os maiores momentos são de calar...







(compilação de imagens: utopia teatro
fotos:paulo martins e francisco gomes
música: bruno béu)

terça-feira, 3 de março de 2009





















sei localizar-me na morte
como sei onde fica a minha mão direita
suportando a cabeça do ser




















a calma é um lugar breve calado na noite...















(foto:sophiarui - "um-corpo-esculpido-de-feras")

segunda-feira, 2 de março de 2009


há um respirar baço
a lua cai em abismo sobre mim
ninguém nota
nunca ninguém nota
mesmo que se demorem em mim
os mil anos que a saturação dos séculos oferece
aos espiritos impuros


chove
todos falam do poder da terra
de como se movem os campos instigados pela sombra


mas tu, olhar breve confinado por estacas
lanças na madrugada o que sempre esteve cá....










coloco os meus óculos gastos
para que te poder chegar...










(foto:tysjusz - "untitled")

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

gomo a gomo...

e entre pinceladas
entre tintas
entre rossos e paredes abertas
entre chão por tratar e caixas para empacotar
entre acampamentos e chuva
entre pó a lama
cimento e cal
gesso e madeira

entre o muro e a laranjeira...
deixo-vos já a música que alimenta uma forma citrina de viver...



...sorvê-la inteira... gomo a gomo...



Arabesca - At-Tambur

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

"my dust will tell what my flesh would not"


Soon This Space Will Be Too Small - Lhasa




"Soon this space will be too small
And I'll go oustide
To the huge illside
Where the wild winds blow
And the cold stars shine

I'll put my foot
On the living road
And be carried from here
To the heart of the world

I'll be strong as a ship
And wise as a wale
And I'll say the three words
That will save us all
And I'll say the three words
That will save us all

Soon this space will be too small
And I'll laugh so hard
That the walls cave in

The I'll die three times
And be born again
In a little box
With a golden key
And a flying fish
Will set me free

Soon this space will be too small
All my veins and bones
Will be burned to dust
You can throw me into
A black iron pot
And my dust will tell
What my flesh would not

Soon this space will be too small
And I'll go oustide
And I'll go oustide
And I'll go oustide"

domingo, 4 de janeiro de 2009

2009


um bom ano só começa
com o som de bons estilhaços
a espantar o ano que passou



" a tradição já não é o que era"
a vida por aqui também não!







Resolução para 2009 - baile nos pés uma vida inteira, botas rotas mas felizes!!!
:)



































(foto: tradballs -passagem de ano 2008)

terça-feira, 30 de dezembro de 2008



Let the show begin
It's a sorry sight
Let it all deceive
Now I'm
Pains in me that I've never found

Let the show begin
Let the clouds roll
There's a life to be found in this world
And now I see it's all but a game
That we hope to achieve
What we can
What we will
What we did suddenly

But it's all just a show
A time for us and the words we'll never know
And daylight comes and fades with the tide
And I'm here to stay

But it's all just a show
A time for us and the words we'll never know
And daylight comes and fades with the tide
I'm here to stay









(beth gibbons & rustin man - "show")

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008


conheci um homem que se alimentava de palavras
e era tão magro, tão magro
que desapareceu...























(foto:deranged - "looking so long for the words to be true")

"raining cats and dogs"


os meus cães ladram nas ruas onde eu passo sem me conhecer
e os gatos reclamam a casa vazia em que os deixei...



... não, não estou longe...

estou apenas no quarto ao lado daquele onde acontece o mundo.



















(foto:renata virzintaite- "raining cats and dogs")

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

domingo, 14 de dezembro de 2008

acção de graças

sempre acreditei em milagres, coisas simples... (mal percebemos...)
agora tenho a certeza que eles existem
passam por nós
e dão-nos a oportunidade de vivermos, uma vez mais




sete vidas têm os gatos...


nunca saberemos quantas estão destinadas a cada um de nós...






















"vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora..."
mat. 25:13

domingo, 7 de dezembro de 2008






















quem empreende a vida na conquista de uma borboleta,
esmigalha centenas de casulos pelo trilho
















(pedro s. martins
foto:nikolay zhelyazkov - "butterfly route")

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

por dentro - ára bátur




















(sigur rós)

"Há uma religião de que não se fala nas igrejas, o amor pelas pedras e a terra, as plantas e os animais, os livros e os barcos. É uma ideia estranha, quase irónica, mas talvez eu tenha amado demais.
Ele costumava dizer que eu não tinha o dom de amar, como certas pessoas não têm o dom de fazer crescer uma planta (...)

Eu gostei de Max pelo seu aspecto e a sua casa, e a sua forma de beijar, e a primeira memória de lilases, e as pinturas de El Greco... Eu amei-o como só um ser maldito pode amar outro ser maldito (...)"

















(ana teresa pereira - "o verão selvagem dos teus olhos"
foto:druid - "picture")

quarta-feira, 5 de novembro de 2008












"a memória que tinha dela?
a memória que tinha dela era o vazio de nunca a poder apagar da memória... que era ela..."

















(texto: víria veraz
foto:roksana mical - "untitled")

domingo, 2 de novembro de 2008

sintra é semelhante a bruges

"maybe hell is just this...
being in fucking bruges"1











"toda a beleza é terrível"2












(1- do filme "in bruges" de martin mcdonagh
2- Teixeira de Pascoaes disse: "todo o anjo é terrível"... ele sabia... ele sabia...)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008


"Hit her with a hammer
Teeth smashed in
Red tongue twitching
Look inside her skeleton

My fingers sting
Where I feel your fingers have been
Ghostly fingers
Moving my limbs

Oh God I miss you
Oh God I miss you
Oh God I miss you
Oh God I miss you
Oh God I miss you

Daddy's in the corner
Rattling his keys
Mommy's in the doorway
Trying to leave

Nobody's listening
Nobody's listening
Nobody's listening
Nobody's listening
Nobody's listening
Nobody's listening
Nobody's listening
Nobody's listening

Oh God I miss you
Oh God I miss you
Oh God I miss you
Oh God I miss you
Oh God I miss you
Oh God I miss you"
















(letra: p j harvey - "the piano lyrics"
foto: não identificada)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

i'm a ghost story


eu costumava morrer por acidente. entendam:
eu não sabia o que eram corpos desabotoados.
eu tinha sentimentos exactos e caía em poços
que não vinham nos meus mapas de algibeira.
agora caminho acompanhado por quem partiu
e abandono-me metodicamente a cada desastre.







(texto: pedro jordão
in, revista criatura nº2

foto:laika - ".")

quinta-feira, 16 de outubro de 2008


claro que se tem medo que alguém nos entre pelos olhos.
mas podes arder. para a tua temperatura sou mercúrio, linhas da mão, lábio e sopro. atravesso-te porque me atravessas e onde somos corsários rendemo-nos ao encanto da devolução.


tu e eu à espera de um lugar que vai fechar tudo numa árvore.
aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda a tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a medida exacta do meu desejo.


sou um animal. necessito diariamente da transfusão de uma enorme quantidade de calor. tocas-me?














(in, " a paixão e prisão de egon schiele" - vasco gato
foto: ailine liefeld - "room stories")

no tempo em que as avós falavam
as manhãs cheiriscavam a café acabado de fazer
borra repousada no fundo ao custo de uma brasa
e bolo de manteiga quente com sabor a erva doce

















(foto:katia chausheva - "conversation")

quarta-feira, 15 de outubro de 2008


fazes um rasgo, e outro e outro
a lâmina tece estórias como se fossem linhas
escreve sulcos como se fossem palavras
a pele esburgada há pouco em silêncio cumpre o rito
ninguém teve culpa que a ave tivesse caído por terra sem rumo no teu quintal
por muito que te custe, o estomâgo ronca
e dá horas à soma dos dias de jejum forçado
ninguém teve culpa
pegas na cutela com a carga de um homicídio premeditado mas
há fomes que têm que ser abatidas antes que nos consumam e ardam cá dentro
incapazes de se circunscrever
largas pequenas gotículas, uma a uma
salgas as carnes rosto abaixo
e ditas os gestos que amparem o jantar humilde
lembra-te - ninguém teve culpa, ninguém teve culpa
que a ave se tivesse abeirado da bala em pleno ar
ninguém teve culpa
se te pedirem contas do sucedido
podes explicar ao advogado a legítima defesa, que a fome
é coisa que pode matar, e afinal, canja é sopa de gente pobre mais nada
caldo quente no prato esboucelado cedido pela vizinha
lembra-te - ninguém teve culpa, ninguém.















(foto:cyril auvity - "sacrifice")




"o que dói
é não poder apagar a tua ausência
e repetir dia a pós dia os mesmos gestos


o que dói
é o teu nome que ficou como mendigo
descoberto em cada esquina dos meus versos


o que dói
é tudo e mais aquilo que desteço
ao tecer para ti novos regressos"









(in, "óxalida" de cérjio lage
foto: cyril auvity - "encounter of 3rd kind")

quarta-feira, 8 de outubro de 2008


"ainda bem que partes
já me sobram mais afagos para o gato,
mais espaço na gaveta e nas horas;
com os lenços que deixaste
posso pôr em cacos limpos
o restante coração"
































(texto:josé miguel silva
foto:sophiarui - "nem com o bater da porta te vais)