sexta-feira, 1 de abril de 2005

a janela

da minha janela eu via o mar
e a lonjura dos teus olhos fizeram-me sonhar

sonhar que havia um mundo para além
sonhar que um dia eu deixaria de ser ninguém

na minha janela
deixei de te ver ao ver-te
(ver-te com ela da minha janela)
e os olhos outrora belos se turvaram
não por serem baços
não por se firmarem
mas porque a verdade nem sempre trás com ela o mar da minha janela

e em silêncio os sonhos se ficaram
a maresia voltou a entristecer
e os teus olhos agora desvitrificados deixaram-me cadáver
ainda antes do anoitecer
ainda antes da morte me deixar morrer

continuo a tentar ver-te da minha janela
não para que me apareças nela
mas para que a beleza voltasse a permanecer bela


e o sol... o sol da minha janela voltasse a unir-se ao mar
a fazer-me sonhar nos longos traços da lonjura inicial
como se da morte surgisse a Luz primordial
e eu voltasse a ver de facto o mar
o mar que de lá de longe me chama de novo a amar
o mar que antigamente se via da minha janela
incandescente a lava que lavra a tua terra outrora infertil
incandescentes os olhos que me olham e me chamam dentro
incandescente a ira a raiva de nunca me ter feito tua
incandescente a indecente vida que morreu aqui!

quinta-feira, 31 de março de 2005

a escada escura

subo a escadaria escura
o incontornável som da madeira rangente
os bichos que a corroem no silêncio

não acendo a luz
(nunca acendo a luz com o desejo secreto que me descubras no breu)

vou desfazendo a escada a cada subida
a cada descida
a cada passo
o esmigalhar lento como a uma espécie de bolacha
farinha que vou deixando como um rasto

chego ao patamar emprestado
alugado à pressa para se poder viver

estás sentado à minha espera

pergunto-te: porque me esperas?
respondes: "porque é (sempre) útil" esperar-te!

sou ali mesmo o pedaço de chão que esmigalhei há instantes
o vão de escada
(em vão...)

sábado, 19 de março de 2005

Digestão curta

Digere-me ...
Digere-me aqui no meio do restaurante
Onde me ofereceste um cardápio bafiento de tasca mal frequentada

(Seu cabrãozão de meia tijela... de pós refeição semi-digerida-penso)

- Que refeição pretendes tomar caro senhor?
Cozido... Frito... ou guisado?

- Hum... deixa-me pensar...pensar... pensar... esquematizar...
bom.. o tradicional e do costume...

(- A que soube a carne lenta da memória incerta hã???? TOU A FALAR CONTIGO CABRÃO!-digo em silêncio - com os olhos brilhantes)

Digere-me...
cega-me com um garfo...

corta-me em pedacinhos a menina dos olhos
Devora a polpa com uma colher de sobremesa mal lavada ainda com resquícios de chantilly

tem a coragem de me provares...
de saciares a tua barriga de padre excomungado

o empregado pergunta:

- Já pediram?

E tu agoniado com uma sobremesa que não pediste vomitas em cima da mesa...

-Isto não são maneiras! ainda podem pedir mas não troco a toalha! - diz o empregado

Sais do restaurante semi-curvado a quereres vomitar as próprias entranhas...

As claras do chantilly tinham a sicuta dos gregos antigos... lembras-te?

Despeço-me do empregado agradecendo a refeição que não experimentei
Sigo em direcção à saida como se me lembrasses o caminho desde o início...
Mesmo cega não tropeço, sigo hirta... firme...
deixaste-me um rasto de odor tão intenso... que o caminho é fácil!

Estás cá fora a espumar a sobremesa - cheiras a podre misturado com vomitado...

Pergunto-te - estarás pronto para o jantar?
Já marquei a mesa

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

Esta rua

Nesta rua passam carros muito novos
E entre os novos passam carros muito velhos

E passam pessoas...
E passam pessoas velhas
E passam pessoas novas
(menos velhas do que novas)
As velhas passam cansadas
e as novas passam e não se sabe muito bem como estão...

Passam pessoas...
Passam namorados
Apaixonados, enamorados ou até zangados

Passam namorados agarrados
passam namorados afastados
e passam rapazes que puxam as raparigas arrastando-as
e passam raparigas amuadas com namorados seguidistas olhando para o chão
Será que se amam?
Será que não?

E passam crianças que floriram ainda na última Primavera
E riem ao Sol...

Não percebem ainda que os carros novos têm novas letras
e que os velhos estão prestes a parar
e que quando forem "grandes" escolherão talvez também esta rua para namorar.
Já não passas por aqui desde o dia em que partiste...

Avançaste na imobilidade preemente de já não seres de ti próprio

Fugiste da sombra que era tua e escondeste-te debaixo da terra
Ninguém foi ao teu funeral.
Resta uma pequena flor na tua campa.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2005

"ahhh... C'est pas vrai...
tu m'a oublié

maintenant qu'est ce que je fais?"

in "Cinema"
Rodrigo Leão

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

"- o que esperas de mim?

sabes que costumo comer em silêncio à mesa..."

- e tu? que esperas de mim?

sabes que( se o quisesses) poderia comer contigo numa mesa de silêncio e disfrutar do mais puro dos banquetes... a tua presença em mim...

onde andas que não te sinto em mim?

- por aí... sem ti!

terça-feira, 21 de dezembro de 2004

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

"Let's unite tonight
we shoudn´t fight
embrace you tight
let's unite tonight"

I thrive best hermit-style
with a beard and a pipe
and a parrot on each side
Now i can´t do this without you

i never thought i would compromise

one hand loves the other so much on me

let's unite tonight..."

bjork
unison

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Nutrias-me com restos de comida de outros mundos

Mastigavas e passavas-me pela boca a comida... espécie de soro enfiado pela veia só para que pudesse sobreviver...
Estou cega mas vejo bem a tua cor.
Falhámos aqui quando misturámos paletas colando-as uma à outra e deixando as cores do lado de fora...

Sujámos as mãos que tivémos que lavar num rio poluído...
Secaram e agora cheiram mal... Tinta escura entranhada nas mãos brancas imersas em essência barata...

As paletas boiam agora no rio em busca do mar...
Vitrificam os teus olhos flácidos quando se ouvem as palavras do medo: "Amo-te"

Foges no mesmo sítio onde me olhas...

e morres deixando o espectro de quem falhou a vida por ter medo de a viver!
Não te seguirei pelas ruas ondes passas porque a minha função não é seguir-te!

Soa-me a ti... escondo-me num beco qualquer ouvindo os teus passos que ressoam até desapareceres... até eu morrer aqui... num beco sem saída...
Gostava de conhecer o teu rosto como conheço as linhas da tua mão

Mão que não tocarei nem avistarei por aí na rua

As mãos não se tocam - sentem-se

e os lábios não se beijam - entreabrem-se como a eternidade

e o teu rosto não conheço - mas olha-me fixamente e diz-me em som rouco

- és minha!

sexta-feira, 17 de setembro de 2004

"where is the line with you?
where is the line with you?
i want to be flexible for you
i am flexible (...)
(but) where is the line with you?"

bjork
medulla
"and is all just a show
a time for us
and the words we never know..."

bett gibbons and rustin man

quinta-feira, 16 de setembro de 2004

"Adeus...
não sei quando nos voltaremos a ver.
farei o possível por não pensar em ti...
(e beijou-me na boca)

in "o Desconcerto" de J.S.S.
"eis-me nua à vossa frente à espera de ser amada...
nua à vossa frente... (senhor)"

I stand before you naked
relembras o sentimento que tiveste ontem como uma matéria incerta à qual nem chegaste a colocar um nome... o que sentes hoje meu amor?

- vontade de voltar a uma época sem sentidos!