
estava eu em casa
pela janela a olhar
quando vi no céu
uma laranja a voar

num primeiro impulso
chamei-a dali
era tudo tão estranho
que não me apercebi!

abri a janela
de par em par

uma situação destas
tem que se observar!!

e ainda a medo
espreitei pela janela

e por fim acenei
para que entrasse nela

esgueirei-me um pouco

e ela veio-me ter à mão

será ela um pássaro?
será uma laranja ou não?

olhei bem para ela
e perguntei-lhe - "quem és?"

e em silêncio ela olhou-me
da cabeça aos pés

mas esta laranja
era muito expedita

e moveu-me a mão
como arma de escrita

nada me dizia
ao meu fraco perceber

como se falasse em código
de nunca entender

e levava-me a mão
onde bem queria

dando-me a ilusão
que eu no ar escrevia

de repente saltou
e eu surpreendida...

que vai ela fazer?
estará de partida?

estava apenas a brincar
e saltou novamente

e veio repousar em mim
serenamente

decidi pegar-lhe
e guiá-la eu

em redor de um formato
que era igual ao seu

fiquei a compará-la
com a chaminé

do telhado da casa
do tio Zé

ela achou piada
ao que eu fazia

e tomou-me a mão
retomou o que escrevia

e eu já não sabia
se era ela a escrever

ou se era eu
que por ela escrevia

andávamos as duas
no limiar do medo

de que alguma perdesse
a mão ao enredo

e ali à voltas
do buraco negro

desapareceu-me a imagem...

como num bruxedo...

ficou-me na mão
o formato dela
vem laranja!! vem!!
retorna à janela!

e ela voltou
e mostrou-se enfim...

por dentro e por fora
-vês! só só isto! assim...

e eu tomei cada gomo
para não a perder

ingerindo o sonho
do nosso escrever

e estávamos as duas
neste doce partilhar

de termos aprendido
a escrever no ar

e quando por fim
olhei a casca vazia

cheirava a quente
e a maresia

voltei a fechá-la
para a recordar

memória habitada
do verbo amar!

- fim -







