quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007


repara:

ele - está à janela
cigarro preparado na ponta dos dedos finos
fumo no nevoeiro

ela - à janela está
segura insegura uma caneca de chá
quente no frio

ele e ela: olham o vazio de cada uma das janelas

que dão para o mar

os prédios colam-se tal como os olhares separados na mesma direcção


longe, longe...

solidão partilhada na terra de nunca saber


não, não sabem (agora) da presença um do outro
não sabem há muito daquelas mãos de penetrar
de apenas cuidar e partir
olhar fundo de nunca ficar


toca o sino da igreja

repara:

ninguém os pode salvar!




(foto:. nel . - lounge)

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007


não, não me arrependo de nada...

mas não podia continuar a ser-te





não entendo o que aconteceu...

eu era forte, segura...
a minha entrada era a saída de muitos...



tu eras o reverso do meu espelhar
passavas ileso à multidão




se te encontrasse por aí na rua não daria pela tua presença, nem pelas tuas palavras compassadas a medo em murmúrios

não! nem sequer sentiria o teu cheiro...
(este que depois me ficou gravado na pele)

foi o teu tocar que me prendeu
foi o teu desejo que me inspirou

olhar baço cambiado em brilho
corpo frágil e faminto
dedos delgados cravados no mais obscuro de mim

levavas-me como uma âncora...
ao fundo
e eu deixava que as águas bravias me submergissem
lentamente...

saíamos de vez em quando juntos
fugidos da vida que tínhamos

escondidos
(ninguém podia saber...)


depois encontrámos aquela casa onde me fechavas
por dentro
(no mais dentro de mim)

por fora



sim, havia o mundo lá fora
mas isso - dizias - era um pormenor


e o pormenor foi-se tornando no meu maior objectivo
eu tinha que sair dali
eu tinha que sair de ti


no quarto onde me encerraste - o vazio
no quarto onde me encerraste - eu e tu
no quarto onde me encerraste -só eu a ser-te


do lado de fora da porta poderiam dizer que não havia ninguém

casa calma
onde entrava por vezes uma mulher e um homem
onde entrava várias vezes um homem

(onde estaria aquela mulher que entrou e nunca saiu?)

e tu entravas as vezes que querias - naquele quarto
e tu entravas as vezes que querias - em mim
e tu entravas sem me deixares sair

-deixa-me ir lá fora! - pedia-te

-só hoje! (ser eu em mim!)

tu gargalhavas sem palavras
como se soubesses que me detinhas
como se soubesses que ficarias para sempre, aqui...
que em ficaria para sempre ali







se olhassem para o meu corpo robusto
diriam que era eu a ferir-te

mas lá dentro, no quarto escuro
era eu a rosa a desfolhar
caule espinhoso,
onde cravavas as mãos já sem medo
na pele soluçante



dedos rasgados, os teus
nestes meus espinhos
assim partidos por dentro de ti

caule prenhe a quebrar
sangue exangue
seiva de nunca alimentar






a ferida que deixaste é o duelo
de ainda agora seres tu sempre
a seres-me
em vez de mim!



(foto: velislava "good doctors never leave a scar")

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007


instalei-me numa casa perto de uma vila a alguns kilometros da cidade onde te conheci.

a casa é isolada, os vizinhos poucos e já sem forças para me delatarem (penso).

o dinheiro que tinha, entreguei-o ao senhorio desconfiado em troca de uma chave. daria para a primeira renda e mais alguns dias de pouco sustento.

tenho que procurar trabalho.
(tenho que me procurar)

amigos, já não me lembro deles...
eras estranho - diziam-me subtilmente
já não sei se foram eles que se afastaram, se fui eu que me afastei deles por amor a ti.

(amor, essa palavra indecifrável)



agora estou livre, amarrada à prisão do medo de não conseguir viver sem ti.

saio pouco, apenas o necessário para comprar pão, queijo e alguma fruta.
as lojistas acham-me esquiva, tentam estabelecer conversa - não dou uma palavra, só o essencial para sair da mercearia com um saco na mão.

não posso correr o risco de me encerrares novamente no quarto escuro...
será que ainda me procuras?
será que algum dia me encontrarei?

ando ainda perdida...
não sei o que sou
em que me tornei

de manhã acordo estarrecida depois de noites a fio mal dormidas.
tomo banho rápido para não ver as marcas reflectidas no espelho partido que restou do último inquilino.

penso - um dia vão passar!
um dia têm que passar...

não...na pele já nada resta...
mas no corpo tenho ainda as tuas mãos agarradas aos sítios onde me tocaste...

larga-me!
não consigo largar-te!


esta casa onde me resguardo é ainda um sítio por habitar.


(foto: velislava - "take a cigarette")

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007



Entre nós havia sempre uma espécie de jogo viciado

Tu lançavas os dados e eu caía invariavelmente aos teus pés como se fosses a sombra irreconhecível de mim

Encerravas-me no quarto escuro dias a fio...

cordas apertadas nos pulsos já sem sangue
mordaça na boca para não soletrar palavras feridas-dizias


Ao cair da tarde saías da tua vida anónima
e entravas no quarto escuro para me visitar

Subias os estores rangentes da memória
e mostravas-me a noite escura de que os dias eram mergulhados

era o momento de me soltares da cadei(r)a
sussurrando-me ao ouvido palavras dóceis
como se nunca antes me tivesses aprisionado

(ternos modos, face dura)

eu entrançava os dedos nas tuas rugas prematuras
e a medo - dizia sim ao que me propusesses
(apesar de tudo tinha-te cá dentro- tão forte)

o amor contigo era sempre um misto de ternura e violência
de carinho e ódio...





um dia deixaste as cordas laças
e eu, experimentando o gancho de cabelo na fechadura da porta
consegui fugir


levei comigo apenas a gabardine branca
(única capa com que que me vestias)


continua a perseguir-me a imagem que tenho de ti:
sou eu, no quarto escuro sempre.





(foto: maviej boryna - "no way out")

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

"tenho sentido momentos em que tudo me parece de uma esterilidade negra, de impotência realizadora, de gosto, de inútil; outros de irradiação celeste, de fecundidade imensa, de um abrir ao criador como a flor se abre ao sol.

Encontro este choque de sentimentos, massacre de ideias, onde pensamentos velhos resistem a pensamentos novos e pensamentos novos se formam de sentimentos velhos.


Nos momentos de calma, de entrelutas, refaço as trincheiras da resistência, examino a minha capacidade de energia vital e aparece-me a vitória nítida."



(carta de Amadeo de Souza Cardoso à sua família - 1912)


(pintura: amadeo de souza cardoso "trois lévriers blancs"
tinta da china sobre papel - 1912)

"as viagens, então, são o grande livro do artista. São-lhe necessárias como a Bíblia e o latim a um padre...

Ora, em todos os livros é preciso virar a folha, este virar de folha equivale aqui a uma viagem.

Nós os que nos dedicamos à Arte com amor não viajamos com intuito de passear, quando passamos de um para outro ponto os nossos conhecimentos avolumam como um rio que toma afluente.

Estas coisas não serão sérias para muita gente mas para mim são de capital importância."

(carta de Amadeo de Souza Cardoso a sua mãe - 1912)

(pintura: amadeo de souza cardoso "la tourmente"
tinta da china sobre papel - 1912)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007


"infinitamente delicada e tremenda é a presença do imenso no pequeno e não a dilatação do pequeno no imenso"



















in, cristina campo,
"os imperdoáveis"
assírio e alvim

(foto: carlos matos - estruturas e coberturas)


...depois de ter aguardado a última hora
desço à rua onde soam a doze badaladas...
(nunca me tinham soado cá dentro tão belas!)

percorro em linha recta o caminho que me leva até à varanda do paço

casais beijam-se, serve-se champanhe,
existem crianças
e novos e velhos...

há luzes no ar!

Encostada ao varandim olho para trás, para o velho edifício do café Paris, a torre da igreja,
as luzes (novamente as luzes) nas árvores centenárias...


luzes que em breve se apagarão...
beleza imensa esta, aqui tão perto
(sem poder chegar...)

Escorrem-me algumas lágrimas pela face...

Percorro as ruas desertas...
ninguém...
Nos primeiros minutos do ano...
ninguém...
(nem eu...)

Subo ao andar cimeiro que me dá tecto
Acendo as velas e o incenso
apago as luzes
(ficam só as de fora sempre)

aninho-me no sofá improvisado
na vida improvisada deste corpo

rezo em frente ao ícone
vela antiga prestes a apagar








muita gente me perguntou acerca desta última noite:

"vais ficar sozinha?"

e cá por dentro, na resposta inaudível aos que de fora perguntam
respondia-me:

Não é uma questão de ficar
ou estar sozinha...
é uma questão de se ser só...

(... e neste momento não me apetece nem sequer ser
nem ao pé de mim
nem ao pé de tanta gente...)



adormeci por fim embalada certamente pelos anjos
numa cantiga de ninar para não ter medo...

(dos dias novos...
os dias sim!são sempre novos...mas...)


foi a última noite
foi a primeira
do ano

(a noite vem sempre antes do dia-disseste-me)




(foto: jean frederic bourdier - happy new year with the angels)

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

nada a fazer...

mesmo que me dissolva na água
que saia de mim como um esguicho
que me retenha num copo
ainda que transparente

terei somente
hoje e sempre
esta cor de manchar

será que um dia vai mudar?



























(foto: elena kulikova - "paint")

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006


olha para mim oh Deus!
Assim de frente!

Será que para Ti alguma vez serei inteira?
Ou terei que ser sempre este retalho?

Estes estilhaços que nunca somem para poder ser nada
para no nada me poder dissolver...

Serva inútil em todos os lugares habitados




Eu aqui oh Deus...

(o abismo sempre...)

Olha-me por favor assim de frente!
Segura que só o Teu olhar me pode Ver!







(foto: velislava - "division by mirror")

segunda-feira, 27 de novembro de 2006




relembro-te...

estavas assim, lá ao fundo às escuras



e eu tinha tudo preparado para a fuga

gabardina comprida

mala amarela com areia e incenso

a contagem do tempo por segundos

e uma espécie de vela
como quem pede luz à boca dos teus versos

Suspirava elsinore pelos poros cheios de rouge...


E tu colocaste-te na plateia (en/a)cenando um adeus

e de polaroid em punho tiraste-te-me um retrato!




foste tu que fugiste ali para a noite escura

onde te esperava o empregado de bar!



"que o dia te seja limpo!"



(fotos e citação: mario cesariny)

sábado, 25 de novembro de 2006


Hoje ao fazer limpezas encontrei uma aranha.

"lá fora estaria tão melhor!"

toquei-a com um só dedo para que subisse
para a poder soltar...
e ao tentar salvá-la matei-a!!

pensei:

tão frágil esta teia deixada
este resquício onde já não ouso colocar as mãos






somos sempre esta coisa a matar
somos sempre esta coisa a morrer
sem saber bem o que fazer...











(foto:jean frederic bourdier - "spider empire")

sexta-feira, 24 de novembro de 2006


Não sou eu que reclamo com a vida
é a vida que reclama por mim!



























(foto: gunther uecker "composition"1963
pregos pintados sobre painel
colecção berardo)



uma toalha de linho sobre a mesa

algumas migalhas

e o resto do pão que sobrou de ontem...


















(foto: cig harvey - "tread softly")

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

sexta-feira, 17 de novembro de 2006



pensava que emagrecendo
retiraria de mim o peso do mundo

ao invés disso
descobri que os casacos também obedecem às leis naturais

que as golas crescem sempre à medida do meu pescoço

cada vez mais fino

cada vez mais esguio

(estrangulando ou desnudando conforme a estação)

descobri que até as botoeiras aguardam encontro marcado
com aquele que nelas entra

e sai

e o encontro é sempre uma coisa apertada
e a despedida é sempre uma coisa que doi

(tenho tanto frio sem casaco!)

sinto o corpo em contínuo emagrar
como se quisesse por ele só ser nada

(como foi ele adivinhar?)


o meu casaco encolhe religiosamente
consoante a mutação da minha medida


e os botões apesar de frágeis
ficam presos até magoar...

ficam soltos
permitindo o frio entrar...











(foto: cig harvey "serie - tread softly III")

quinta-feira, 16 de novembro de 2006


hoje amanheci já velha...
tão velha que não me reconheci!

























(foto: fernando lemos-"a realidade pelo telhado" - 1949/52)

segunda-feira, 13 de novembro de 2006




Será que me Vês assim?


(isto que sinto...)



carne prestes a rasgar

quietude inerte

olhos fechados

inchados

abalados muito adentro

do dentro

do centro...

de Ti...


façam-me o que quiserem

removam-me os restos mortais

atirem-me para uma campa

transformem-me em cinza ardente

lava incerta

magma a estalar



(esta terra...)



vou ficar calada

muda

queda

em tom de resvalar

em tom de deixar soar

apenas a carne aberta

da ferida que em vez de curar desperta


corpo (não sei já se) meu

harpa exsangue

vasos pregados no madeiro

artérias sonantes

ao toque das mãos

das Tuas mãos já feridas

esburacadas

sofridas...


(toma as minhas-são só isto!)


Ouve-se uma música frágil

Será a harpa feita do Teu madeiro?

Serão as veias tocadas pelas Tuas mãos?

Um dia talvez Te dê... (Oh Deus!)

o meu grito inteiro...

e golfadas de sangue jorrarão!



Até lá fico quieta

carne rasgada

ferida aberta

muda

calada

queda





não tenho forças já...



(foto: lilya corneli- "lost gravity 5")

sábado, 11 de novembro de 2006



existem coisas que são para escolher
e outras que não se escolhem...

existem coisas que são para acolher
e outras que não se acolhem...








há que colher sempre (todas) as coisas...





(foto: katia chausheva -"grape")


















Tu sabes que eu gosto de calma
e de serenidade
e gosto de ondas
e de mar
e da maresia nos cabelos a bailar

Tu sabes que às vezes me entristeço
por não saber onde estar
por não Te saber amar

e aí é só melancolia
um soturno frágil
um rasgar o rumo
uma imagem inquieta com piano ao fundo

e Tu sabes que depois da calma
por vezes surge a rajada
o clarão tenebroso
e a trovoada

e o vento breve fica furacão
e está tão perto de mim
que me faz trovão!

(nunca nos conhecemos... pois não?)

e a imagem serena quando chegas até mim
abraçando-me forte
dizendo-me: "Estou aqui"

e no meio da confusão e da bofetada
e no meio de tudo
e no meio de nada

o fim volta a principiar
e morte em mim triunfa?

(um dia há-de triunfar!...)









(foto:lilya corneli - "wind is your wings 4"
work with maria mann)