quinta-feira, 1 de maio de 2008




























sempre essa luz que se vai ao final da noite



____________



um quarto é sempre pequeno demais para dois corpos...







(fotos:sophiarui - "the empty-full bedroom")



"This love
This love is a strange love
A faded kind of mellow
This love

This love
I think I'm gonna fall again
And ever when you held my hand
It didn't mean a thing, this love

This love
Now rehearsed we stay, love
Doesn't know it is love
This love

This love
It hasn't have to feel love
It hasn't need to be love
It hasn't mean a thing
This love

This love loves love
It's a strange love, strange love

This love
This love
This love is a strange love, strange love
I'm gonna fall again love
It doesn't mean a thing
Think I'm gonna fall again"



(letra: craig amstrong - "this love"
foto: cig harvey - "tread softly IV")

sexta-feira, 25 de abril de 2008



porque dias há em que não nos podemos calar...













(video: ana hatherly, "revolução" - 1975)

quinta-feira, 24 de abril de 2008


deixei de acreditar em deuses e em quimeras
em sorrisos sem tempestades
em mãos sem chagas

deixei de acreditar no sol depois de uma noite escura
ou num bater de asas numa ave ferida





sim deixei de acreditar em muita coisa...




e milagres?


sim. ainda acredito em milagres.

talvez no daquela mãe que ensinou ao filho o silêncio
numa casa sem luz









(foto:kalua k krynska - "...")

estranho...





nunca te encontro pela manhã...













(foto: kalua k krynska - "dead center")

domingo, 20 de abril de 2008




preparo-me para o baile
a saia rodada
os cabelos soltos
os sapatos prontos

dançamos em conjunto como se não existissem madrugadas

trocamos pares e suores
trocamos ombros e pulsos
tudo é de todos e de ninguém
tudo é só isto o que isto é
e só isto assim já é perfeito...

começa a tocar alio...
(uma das minhas mazurkas preferidas)

os pares entregam-se aos primeiros sons do acordeão

os corpos concentrados dedicam-se à música de Toon e Pascale
nada importa a não ser este segundo

os pares não se escolhem... acontecem...
e desta vez fico sozinha no rebordo da sala
calhou assim...

não me custa dançar sozinha
custa-me a solidão da música
custa-me a solidão de alio no meio da sala... sozinha...


não ter um corpo com que me fundir naquele momento...
não ter quem me resgate naquele segundo...










(foto:dani mesk - she dance alone)

sábado, 19 de abril de 2008

atirei-me de cabeça... e está a saber-me bem... :)


, originally uploaded by sophiarui.



, originally uploaded by sophiarui.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

"não acredito na vida, estou árida e incapaz de sentir seja o que fôr...
sou uma planta Leo... o meu destino é consumir-me nesta estufa imunda..."




in, "o binóculo" de manuel lourenzo




(ouvindo brados...os olhos dela... os olhos dela...)

quinta-feira, 3 de abril de 2008

há gajas que conseguem ser muito putas!




6ªs e sábados - 22h


até 26 de Abril

Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul

Av. D. Carlos I, nº 61, 1º

1200-647 Lisboa

Tel: 21 397 34 71

Fax: 21 390 03 17



e-mail – guilhermecossoul@guilhermecossoul.net




(foto de ensaio)

quarta-feira, 2 de abril de 2008




"Soon this space will be too small
And I'll go oustide
To the huge illside
Where the wild winds blow
And the cold stars shine

I'll put my foot
On the living road
And be carried from here
To the heart of the world

I'll be strong as a ship
And wise as a wale
And I'll say the three words
That will save us all
And I'll say the three words
That will save us all

Soon this space will be too small
And I'll laugh so hard
That the walls cave in

The I'll die three times
And be born again
In a little box
With a golden key
And a flying fish
Will set me free

Soon this space will be too small
All my veins and bones
Will be burned to dust
You can throw me into
A black iron pot
And my dust will tell
What my flesh would not

Soon this space will be too small
And I'll go oustide
And I'll go oustide
And I'll go oustide"



(foto e letra: lhasa de sela - "soon this place will be too small")




























guardei para ti o mais belo dos vestidos...
nunco mo despiste...











(foto:jan bernhardtz - "un-dress")

terça-feira, 25 de março de 2008


Abandon II, originally uploaded by dreaminfinity.






comecei a perceber que os copos derramados
nunca tiveram neles leite
nem outro líquido
que os pudesse chorar...


(finas são as lágrimas do pó...)

segunda-feira, 24 de março de 2008

às vezes lamento ter-te tão gravado cá dentro... "like a videotape..."


"i have it all here
In red, blue, green
Red, blue, green"


in dark my dear, in dark my dear...





(radiohead: videotape scotch mist)

sexta-feira, 21 de março de 2008


Broken flowers, originally uploaded by dreaminfinity.







"Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe e a irmã da sua mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria Madalena. Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho!» Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua mãe!» E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua."





Evangelho segundo S. João 18,1-40.19,1-42.

quarta-feira, 5 de março de 2008

que fazer quando se mistura muito, mas muito medo, angústia, ansiedade e mais...?...

que fazer quando se escolhe deliberadamente uma espécie de masoquismo incondicional?

que fazer quando a vida nos abate sempre em forma de mortes... muitas mortes esventradas aqui por dentro?...


que fazer quando noites seguidas, marcadas propositadamente, se delibera o desencaixilhar constante do coração?...

que fazer quando se quer mesmo fazer isto... morrer isto... viver isto... assim numa espécie de amor e ódio... numa espécie de escolha não escolhida... numa espécie não se sabe bem de quê...

que fazer? que fazer?...


um dia vou explodir... eu sei que vou explodir... e espero que esse dia seja 6ªfeira!

já marquei na agenda - vou explodir esta 6ªf... dê por onde der!

sábado, 23 de fevereiro de 2008


"There were these two people
Living together in a peculiar house
This house was so peculiar
Because it made such strange noises

The couple decided that they had to move
They could no longer stand living with such strange noises
So they packed their bags and
Put on their propeller hats

And so they flew
High above the ocean and forests and mountains
To find a place
Yeah they flew far into heaven to get some peace
To find a place
That would be quiet
So - quiet

But heaven was no permanent place for this silence seeking copule
Because there there were sounds too
Sky sounds
So they left the place
So they left the place

They flew high above the birds and the clouds and the moon
To find a place
They flew far into the universe to get some peace
To find a place
They flew high above the birds and the clouds and the moon
To find a place
They flew far into the universe to get some peace
To find a place
That would be quiet
Absolutly quiet

They flew high above the birds and the clouds and the moon
To find a place
They flew far into the universe to get some peace
To find a place

But everywhere they went there were these sounds
Strange sounds
Somebody else's sounds
And somebody else's sounds are lot worse to live with than one's own

So the couple found that they might as well go back home
They took off their propeller hats and
Descended between the stars

East or west - east or west
Home is best - home is best
East or west - east or west
Home is best - home is best"

(letra:anja garbarek - "strange noises"
foto:vitor g. "kiss")

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. Amén.


Natália Correia






(foto:angelicatas - "engraved memories")

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

nas estórias existem sempre imagens que não encaixam...



















































(fotos:tomek paczkowski - "untitled")



"White chalk hills are all I've known
White chalk hills will rot my bones
White chalk sticking to my shoes
White chalk playing as a child with you

White chalk sat against time
White chalk cutting down the sea line
I know Mary's by the surf
On a path cut 1500 years ago

And I know these chalk hills will rot my bones

Dorset's cliffs meet at the sea
Where I walked
(Our unborn child in me)
White chalk
(Poor scattered land)

Scratch my palms
There's blood on my hands"


(pjharvey-white chalk)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008


If it be your will
That I speak no more
And my voice be still
As it was before

I will speak no more
I shall abide until
I am spoken for
If it be your will

If it be your will
That a voice be true
From the broken hill
I will sing to you
From this broken hill
All your praises they shall ring
If it be your will
To let me sing

From this broken hill
All your praises they shall ring
If it be your will
To let me sing

If it be your will
If there is a choice
Let the rivers fill
Let the hills rejoice
Let your mercy spill
On all these burning hearts in hell
If it be your will
To make us well

And draw us near
And bind us tight
All your children here
In their rags of light
In our rags of light
All dressed to kill
And end this night
If it be your will
And end this night
If it be your will

If it be your will
If it be your will
If it be your will...




(antony and the johnson's - "if it be your will" - leonard cohen tribute )




(foto:yans mjolk -"untitled")

tenho a plena noção que não fui feita para finais felizes...
aliás, na minha vida nem sei muito bem onde tal noção se possa encaixar

isso não é de todo uma fatalidade
é talvez apenas uma outra forma de por aqui andar...






(foto: lilya corneli - "patchwork series")

sábado, 2 de fevereiro de 2008

às vezes este silêncio irrita-me
aliás, este blog às vezes irrita-me
MESMOOOOO!!!!


vou gritar!!!
hoje sou isto!!!
WILD FORCE ON A FREE WAY!!

ninguém me pode parar! afastem-se!!

finalmente descubro que também consigo ser PUTAAAA!!
e sabe-me BEMMMM!!!!




quinta-feira, 31 de janeiro de 2008


God, originally uploaded by dreaminfinity.




"I sense there's something in the wind
That seems like tragedy's at hand
And though I'd like to stand by him
Can't shake this feeling that I have

The worst is just around the bend
And does he notice
My feelings for him?
And will he see
How much he means to me?
I think it's not to be

What will become of my dear friend?
Where will his actions lead us than?
Although I'd like to join the crowd
In their in enthusiastic cloud
Try as I may it doesn't last

And will we ever
End up together?
No I think not
It's never to become
For I am not the one"



(foto: dreaminfinity
letra: fiona apple - sally's song)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008


Arte em palco, originally uploaded by dreaminfinity.








tu entravas com a tua sombra reflectida de neves
gelo ardente por dentro
o poder da voz soçobrada

tu entravas
e eu não dizia nada...

"que silêncio sepulcral!" - dizias

(canto interior das tuas margens
só ali naquele palco unidas)





(foto:dreaminfinity
frase: nuno vicente - "renaissance - memória habitada a 6 mulheres")

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008


confesso que gosto muito de amores furtivos


não, ninguém saberá da nossa história...










(foto:yong chon yi - "untitled")

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008




"algumas vezes me apaixonei, mas confesso, nem sempre pude suportar essa solidão"


francisco josé viegas










(foto:al calkins - "untitled")

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008




"não fui margem sem outra margem onde ligar os braços
mas fui o tempo solto para entrançar os meus cabelos
e o movimento dos teus pés descalços

não fui solidão inteira nem reclusa
para o único repouso entre o silêncio
nem fui a flor exausta defendendo-se
de toda a mão que a quis despetalar

não fui a casa que a si mesma se abrigou
nem a morada que nunca se acolheu
mas o tempo a pedir que me deixasse

naquilo que não fui vim encontrar-me
e sempre que te vi recomecei"







daniel faria, "explicação das casas"
poesia pag.59
edições quasi



(foto:sophiarui - trabalho sobre imagem de waterhouse)

ouço os 3 minutos finais de October 17 1988 de Keith Jarrett e tudo me parece belo no mundo...

a maior beleza é sempre terrivelmente triste...













(foto:assunta - "the piano")

last snowstorm of the year





"when we were young
we wanted to die
but the sound of a drum
and the words of a child
brought different light
now no one can tell
the winter was nice
but the summer is hell

the ground was so hard
the nights were so long
but we suffered the dark
and we wrote all those songs
still I was a fool
i covered my ears
no I would not face the last snowstorm of the year
no I would not face the last snowstorm of the year"




(letra:low - "last snowstorm of the year")

domingo, 13 de janeiro de 2008


há pessoas que ateiam lumes e depois fogem

nunca percebi do que fogem
se do fósforo
se da cinza

talvez aquele quente
seja frio demais para os aquecer...






(foto:marcin klepacki- "after fire...")

sábado, 12 de janeiro de 2008



"creio que o mais egoísta dos homens é aquele que recusa dar aos outros a sua fragilidade e as suas limitações. Quem recusa aos outros a sua pequenez, comete um dos mais infelizes gestos de prepotência. E porque aí se rejeita, aos outros não poderá dar senão o sofrimento da perda. Querendo-se sem falha, será o mais incompleto de todos os seres."






























daniel faria - agosto de 1993
in, "o livro do joaquim"
edições quasi, pag.74


(fotos: katia chausheva - "petrovki/untitled")


não tenho que aprender a ser perfeita
tenho que aprender a amar a minha imperfeição



(... e isso custa... custa mesmo...
é doloroso suportar-me...)










(foto: katia chausheva - "la bayadère")

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

acrobata


sempre fui acrobata
lembro-me de me contorcer perante a paixão mais sublime
e de arremessar feixes de fogo ao mais indolente dos amores

a vida deu-me sempre a volta:

fiz-me acrobata para dar a volta à vida
transformando o inacreditável em real
o inverosímil em verdade

em todos os palcos
todos os saltos que dei foram sem rede
e se ainda tenho um corpo
é porque as minhas asas são grandes demais para me deixar tombar





(foto:alex rossi - circus 3)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008






por muito que queira... não dá para explicar...

não dá para explicar mesmo...

(sem palavras - só corpo e alma!)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

dias de calar


às vezes penso que seria bom sentir a reclusão das horas...

já pensei muitas vezes tornar-me monja
daquelas despojadas do mais ínfimo bem
descalças no chão mais frio...




o silêncio atrai-me como me atraem todas as coisas inatingíveis
como me atraiem todas as coisas indizíveis

penso muitas vezes nisso
em ser monja
principalmente quando estou assim como hoje...
frágil... prestes a quebrar...



quem comigo passa algumas horas
sabe bem do quanto as minhas palavras podem ser lâminas
gumes rasgando a pele
do quanto podem vir a ser ferida

basta que alguém me diga uma sílaba no momento exacto de detonar
basta que eu tente chegar ao fundo, em queda, ao abismo de mim...



as palavras...
os dias do calar falhado
as palavras...

a saída de som com que as pronuncio
a modulação lacerada pela boca
o impacto de cada letra no corpo em frente
alvo fácil para onde direcciono a minha raiva...

palavras
frias... cortantes...

o choro evaporado de as ter dito assim... a seco...



é premente que existam dias de calar...
para que ninguém saia ferido
para que só eu possa morrer-me


calar é tentar preencher a medida certa da minha ferida
(haverá calar suficiente para isso?)



talvez se eu fosse monja...
silenciosa...
talvez...

nos dias em que consigo o silêncio das palavras
elas transformam-se em facas suicídas
vísceras atingidas
pelas setas do som
grito inaudível
esventrado



palavras...

era tão bom cala-las definitivamente...
era tão bom serem suficientes para me morrerem todas cá dentro...




os dias de calar são metrónomos tangíveis por sombras opacas
os dias de calar são cada vez mais longos e esguios
difíceis de conquistar no ruído da casa



ouço os sons
o barulho da rotina morna
apetece-me ficar quieta, parada, aqui no quarto pequeno...
fumo do incenso
a invadir o mínimo de espaço

para ser monja
talvez precisasse de me desapegar deste ícone
desta vela acesa ao final do dia...

para ser monja
talvez precisasse de abrir apenas esta mão teimosamente fechada



não teria muito a perder...
mas tenho medo...


de perder tudo o que já não tenho
de perder o que nunca tive


o teu cheiro
a pele de alguém
a respiração quente nas poucas vezes que te aninhas ao meu lado nesta cama...
e...


seria capaz de muita coisa
percorrer um país árido por um abraço
atravessar o deserto para ver um pôr-do-sol
reduzir-me a cinza em troca de um beijo

sim... seria capaz de muita coisa menos
desse silêncio parado
desse caminho caminhado
desse "cumprir" saciado


talvez nunca me venha a tornar monja
por não ter essa coragem
de assumir o choro na forma de um corpo
até ao último dia
derradeiro dia no final do som...



mas há dias de calar
são necessários para que ninguém saia ferido...


é por isso que às vezes não falo quando chego a casa
fecho à chave a porta do quarto pequeno
e fico assim, na posição reduzida
mãos agarradas às pernas magras
joelhos dobrados


feto crescido demais para poder nascer



fico assim de olhos abertos sem conseguir adormecer
a vela acesa consumindo o ar
oxigénio interior a esvair-se




talvez se eu fosse monja eu tivesse sítio em que reclinar esta cabeça
talvez se eu fosse monja eu conseguisse dormir o sono justo...
silêncio calado...


a reclusão das horas...









(foto:joannés ceyrat - "un arbre")

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

chance


"walk in silence
walk away in silence
see the danger
always danger
endless talking
life rebuilding
don't walk away
face the danger

walk in silence
don't walk away in silence
see the danger
always danger
rules are broken
false emotions
don't walk away

people like you find it easy
always in tune
walking on air
they're hunting in packs
by the rivers
throught the streets
it may happen soon
then maybe you'll care
walk away
walk away from danger

i'm just crossing the line
trying to get back
right where i was
back where i was
see me crossing the line
don't walk away



(ian curtis - 1ª versão de "atmosphere")


http://obsessedbythissong.blogspot.com/2007/12/atmosphere.html

terça-feira, 11 de dezembro de 2007


ontem à noite uma senhora contou-me uma história de olhos tristes
sentei-me numa das últimas filas da sala 3 do king
e fiquei a ver os gestos e os poemas
a tristeza que se foi e a que ainda resta


e a senhora sempre a contar uma história
que terminou aos 23
uma história que continua aos não sei quantos...

saí para a noite fria...

apeteceu-me caminhar
só um bocadinho
entre os prédios vazios da cidade parada

de roma a entrecampos
apeteceu-me fumar um cigarro sem lume
(nem sequer tenho já por onde arder)




apeteceu-me cantar uma "weeping song"
apeteceu-me contar que há outras histórias depois dos 23
as dos que ficam sempre com aqueles que se vão


se eu contasse...


mas hoje...
hoje é dia de calar...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

poema dum funcionário cansado


"a noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com a vida às avessas a arder num quarto só

sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
débito e crédito débito e crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na conta de empregado
sou um funcionário cansado dum dia exemplar
porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

soletro velhas palavras generosas
flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

são palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só"



(antónio ramos rosa
de, o grito claro - 1958)



(foto: gene laughter - "antique word processor")

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007


hoje pela manhã
esta estação parece-me igual a ontem à noite
algumas horas de distância e tudo igual

os comboios chegam e partem
e eu ando neles
como quem anda de barco
num alto-mar de trovoadas

na dormência acordada dos dias
vou deixando passar estações
vou acotovelando entradas
forçando saídas


(este comboio não tem destino
não pára aqui, já...porquê?)




esta estação pela manhã
parece-me igual a ontem à noite

parto cedo
chego tarde
nunca é de dia aqui


esta estação pela manhã
parece-me igual à noite



eu fiquei no cais de embarque à tua espera
passaram por mim todas as pessoas que te teriam acompanhado naquele comboio
no final de tudo
cais vazio

o revisor sai por fim
ombros pesados da viagem
caminha com a certeza refreada de capitão de um barco alvoraçado
de capitão que não teve a força de controlar as velas

caminha em direcção a mim como se viesse em recado


os olhos brilhantes de contenção
o silêncio quebrado de calar
entrega-me em mãos o teu bilhete obliterado







hoje pela manhã
esta estação parece-me igual à noite
alguns anos de distância e tudo igual











(foto:cédric friggeri- "train")

terça-feira, 4 de dezembro de 2007



apetecia-me agora viajar
caminhar pela estrada de part...





(música: arvo part
filme: softnrewind)

segunda-feira, 26 de novembro de 2007


"não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século aminha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

não posso adiar o coração"






(antónio ramos rosa
de viagem através duma nebulosa,1960)







(foto:lilya corneli -"patchwork series")

sábado, 24 de novembro de 2007



estou apaixonada
e nem por isso me sinto mais feliz...




como dizer-te que serei sempre esta ferida aberta?







(foto:berenika - "(...)")

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

repara: do negro à cor...

Caracol da Graça (Mazurca)






sempre pensei nunca interferir com o silêncio que aqui encontrei...

mas...

há silêncios que se geram na melodia dos corpos
e a dança é outra forma de fazer dançar palavras
sem ruído...








(um dia prometi que ainda iríamos dançar uma mazurca ao relento...
... desde aí passei a ser como tu... e perguntei-te:

" - tu que és feito de esperar:
o que se pode esperar da espera?...

- dança menina! dança! (pareceu-me ouvir-te dizer...) "
)


saudade...


(música: folear)

domingo, 18 de novembro de 2007

um caminho de palavras


"Sem dizer fogo - vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso - duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.

Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com palavras de vento e de pedras, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.

caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

e porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

mas a noite existe
e a palavra sabe-o"






antónio ramos rosa
de sobre o rosto da terra, 1961




(gosto de pensar que este poema me descreve)




(foto:jeff hahn - "ocean dream")

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

hospital


o som cavo no final do corredor
a veia enfiada na agulha
o nome numa cama numerada
horas de espera acumuladas em dias


arquejo final em tom de requiem







(foto:thomas ville - "hospital")

quarta-feira, 14 de novembro de 2007


"Let the show begin
It's a sorry sight
Let it all deceive
Now I'm
Pains in me that I've never found

Let the show begin
Let the clouds roll
There's a life to be found in this world
And now I see it's all but a game
That we hope to achieve
What we can
What we will
What we did suddenly

But it's all just a show
A time for us and the words we'll never know
And daylight comes and fades with the tide
And I'm here to stay

But it's all just a show
A time for us and the words we'll never know
And daylight comes and fades with the tide
I'm here to stay"






(letra:beth gibbons and rustin man - show
foto: cig harvey - tread softly series)





(http://obsessedbythissong.blogspot.com/2007/11/show.html)

o incêndio dos pássaros
é a voz acutilante
num piar breve








(foto:armindo dias - "i'm a bird now")

segunda-feira, 12 de novembro de 2007


"Soon this space will be too small
And I'll go oustide
To the huge illside
Where the wild winds blow
And the cold stars shine

I'll put my foot
On the living road
And be carried from here
To the heart of the world

I'll be strong as a ship
And wise as a wale
And I'll say the three words
That will save us all
And I'll say the three words
That will save us all

Soon this space will be too small
And I'll laugh so hard
That the walls cave in

The I'll die three times
And be born again
In a little box
With a golden key
And a flying fish
Will set me free

Soon this space will be too small
All my veins and bones
Will be burned to dust
You can throw me into
A black iron pot
And my dust will tell
What my flesh would not

Soon this space will be too small
And I'll go oustide
And I'll go oustide
And I'll go oustide"





(letra: lhasa de sela - "soon this place will be too small"

foto: dawek- "untitled")

sexta-feira, 9 de novembro de 2007


será possível classificar a dor?
nomeá-la?

pergunto-te isto porque no outro dia lembro que choraste
porque não te dei um beijo
e disseste "és má!"
e isso magoou-me

e depois fiquei a pensar qual das dores seria a maior
a tua ou a minha?
qual das dores seria uma perda?

existirão dores maiores?
como se mede o tamanho da dor se o coração é tão pequeno?

então pensei que quando me disseram que alguém estava no céu
eu olhei para ele e era azul
e dessa vez não senti dor nenhuma
e acho até que vi um sorriso por detrás de uma nuvem
e na altura eu era pequenina e pensei que ir para o céu era uma coisa boa!
de sorrir!

mas quando desapareceste assim... da minha frente... eu tive medo e pavor e mágoa e raiva e pânico e todas as palavras com todas as letras que fizessem chorar
e estava de facto tão apavorada... tão sem nada e com tudo, que nem sequer consegui desfazer-me em água (que é coisa que faço com alguma facilidade até...)

olhei de novo para cima e choveu
e as gotas eram do tamanho de grandes lágrimas paradas
como se o inverno viesse para se instalar por dentro
como se já não houvesse mais estações no meu coração
como se nunca mais pudessem existir mais verões nem outonos...

(será que alguma vez te disse que gostava do outono?)

então comecei a classificar as dores
a dar-lhe nomes feios ou bonitos conforme a intensidade
a hierarquizá-los em crescendo de gemido:

magoar um joelho
a birra por um gelado
a perda do primeiro namorado
a primeira traição
...

e quando tu morreste pensei que só teria que te encaixar num destes patamares
que era fácil dar-te um nome e arrumar-te numa prateleira na minha vida...

foi aí que percebi que existem dores maiores
dores inclassificáveis
dores que, ainda que não queiramos, nos deixam escravos da própria dor
que se transformam numa camada de pele que passa a fazer parte de nós

quando morreste senti que outras mortes se seguiam
que nunca iria conseguir classificar... isto...

(percebi que já nunca mais te iria ver entendes?
o calor da pele... ficaste fria... e branca... tinham-me dito que o branco assusta e só percebi nessa altura porquê...)

também percebi sem entender que há certas dores que são um grito inteiro
dado ao relento daquela casa onde nunca poderemos entrar

percebi sem entender
que se houver uma hierarquia de dor
as dores maiores serão sempre aquelas que não têm nome...
serão sempre aquelas que invertem a ordem da natureza
são exactamente as que desordenam
as que nos fazem perder até aquilo que nunca tivémos

(descobri que nós não somos nossos entendes? e isso doi!)






quem perde um pai ou uma mãe é orfão
quem perde o companheiro ou companheira é viúvo


mas...
que nomes são estes?
onde estão?

quando partiste pensei que serias um acto isolado
que eu conseguiria apaziguar-te cá dentro
não ia morrer mais ninguém...

eu queria uma palavra para ti
(para que pudesse depositar nela tudo o que sinto entendes?)
como se a existência de uma palavra pudesse ser ela mesma o buraco onde te enterrar)

mas desde que partiste é ainda mais difícil
como se vivesse num mundo em que o meu alfabeto não coincide






procurei em vários dicionários de linguas estranhas até mas...
nunca consegui encontrar uma palavra para quem perde um irmão...
depois para a avó a mesma coisa...
e...

quem se segue afinal?

será que desde aí tenho que ver a morte todos os dias para te dizer que nunca acharei as palavras certas para descrever isto... aqui... cá dentro?...


e depois o pai... por um fio... tantas vezes...
vezes demais...

e vejo a mãe p.
a nossa mãe...

nunca ninguém conseguirá inventar um palavra para quem perde um filho
(essa sim, talvez seja a dor maior...)

envelheceu tanto... p.
envelheceram tanto
envelhecemos tanto p. tanto...

vês daí?... do céu?... há um céu?... de que cor?...






desde que partiste
continuo a ver muita gente morrer à minha frente todos os dias...aos bocadinhos... finos e lentos... e essa morte devagar não pára e consome...




depois da primeira morte há sempre outras...
e em todas as mortes é a nossa que se vai misturando também...


as dores maiores são inomináveis
por não terem espaço nem tempo que nelas possam caber

















"quem disse que o tempo aplacaria a minha dor?"







(foto:chuck inglefield - thoughts of mortality)

quinta-feira, 8 de novembro de 2007


há definitivamente uma grande diferença entre calar-me e calar...



(foto:katia chausheva - night piece)