houve uma altura da minha vida em que eu pensava que a palavra derrota nunca existiria. nessa altura era gorda e passeava-me pomposamente com o meu orgulho por tudo onde era sítio. era ainda mais detestável do que sou agora e podem perguntar à vontade, como é que isso é possível?? (mais ainda???) mas juro-vos que não sei responder.
nessa altura
"a minha entrada era a saída de muitos" e nessa entrada eu saía sempre ilesa a qualquer tipo de catástrofe.
a primeira vez que me lembro da morte foi a do meu avô. acho que a minha mãe estava grávida da minha irmã mais nova, e isso justificou para muitos o facto dela em pequena entortar os olhos até ao tutano e dizerem que tinha sido dos nervos acumulados pela minha mãe nessa altura. agora usa lentes de contacto e tudo está resolvido.
da segunda vez a morte foi mais rebuscada e levou-me a irmã mais velha, que eu amava de coração inteiro, e partilhava comigo um quarto exíguo no 2º bronx daqui da zona. mas eu não me convenci logo da derrota. era teimosa (ainda sou muito) e inchada de orgulho. talvez por isso mantivesse o porte enfartado que me caracterizou até há bem poucos anos. um pouco mais tarde, quando me apercebi melhor do sucessido (sou lenta na consciência) emagreci alguns quilos e soube (aí sim pela primeira vez) o que era a queda.
parecia que só a partir daí começava a perder coisas.
a identidade por exemplo, tive uma crise e depois tive muitas mais (ainda tenho).
a ingenuidade, por teimosia, só a perdi mais tarde. mas acho que foi desde aí que comecei a simular que ainda a tinha (o que é pior que perdê-la).
depois perdi uma tia e passado pouco tempo um primo de linha directa que era por acaso aquele que eu mais simpatizava.
perdi a minha madrinha que foi a pessoa que exageradamente mais me mimou e de quem eu fugia a sete pés (não gosto de demasiados mimos! hiaccc!!). perdi um colega da faculdade que era da minha idade e isso fez-me muita impressão.
entretanto perdi as contas às contas que a morte ia fazendo e percebi que ela me ronda desde sempre. desde os corredores da casa de onde fugi para me resgatar (será possível resgatar-mo-nos quando não nos temos?).
nessa mesma casa cuidei até morrer das minhas duas avós e percebi que a única distância entre mim e elas seriam alguns anos.
aprendi a ir perdendo.
perdi amigos que tinha, que não tinha e que julgava que ter.
perdi namorados (poucos...aliás 1 apenas...). flirt's (muitos - eu sempre julguei que eram namorados mas alguém me elucidou que não)
o meu acunpuntor diz que eu não tenho muito prazer na vida por ter a coluna torta e ser ligeiramente marreca. receitou-me uns chás e a leitura de alguns contos porno na net. eu até lhe dou uma certa razão pois simpatizo com a medicina chinesa. comecei então a ler algumas coisas muito mal escritas que eu pensava que não pudessem existir. (a vida abre-nos sempre horizontes mesmo que esses horizontes sejam limitados). tentei corrigir a "tortura" praticando yoga mas irrito-me sempre com a música ambiente supostamente agradável e não consigo relaxar. já tentei fazer em casa ao som de keith e de pj harvey mas a minha professora diz que não é muito ético (eu acho é que ela não os conhece). acho ainda que foi por essa mesma falta de ética que fui excomungada há uns anos e deixei de ser católica.
até seria budista não fossem os meus problemas de indisciplina com a carne e afins.
algumas pessoas dizem que eu tenho um karma muito pesado em cima, mas eu acho que é mesmo o meu corpo a pensar que ainda é gordo.
a semana passada perdi o meu pai, e acho que na semana anterior já tinha perdido o namorado e não sabia. (seria um flirt? não sou boa com conceitos.)
a minha mãe acha-me estranha. a minha irmã, seis anos mais nova, acha que devia "orientar-me" na vida, pois já tenho idade para isso, e que me estou a tornar numa hippie tonta. o meu cunhado opina que será difícil eu "arranjar um homem" devido ao meu ar "demasiado independente" - segundo ele isso assusta, e os homens não gostam de ser assustados! buuuuu!!
tenho uma grande amiga que diz que eu tenho traumas mas não sou traumatizada. nos tempos que correm, pelos vistos, isso é esquisito e devia tratar-me. todos devem ter um trauma, nem que seja o trauma de não ter traumas nenhuns.
enfim, posso dizer que a minha vida não é monótona e eu até sei fazer algumas escolhas: mudei de sintra para a rinchoa por causa de uma laranjeira e de um alpendre que dá para a serra. e com esta vista ao longe... longe... sonho um dia poder vir a ter uma horta de frutos biológicos (que está na moda e fica sempre bem)para sair finalmente do mundo, isolar-me e ser feliz!